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03/05/2019 – Enquanto ganha projeção uma vertente que contesta o aquecimento global – turbinada por declarações de governantes de alguns países que questionam as mudanças climáticas -, o fluxo de capital vai no sentido contrário: aposta em fontes de energia mais limpas e menos poluentes, cujo uso tende a crescer nas próximas décadas no Brasil e no mundo. Como pano de fundo da discussão, está a preocupação com a sustentabilidade ambiental do planeta e o futuro das próximas gerações.

Em 2017, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), os investimentos em energia elétrica no mundo (US$ 750 bilhões) superaram, pelo segundo ano consecutivo, os aportes feitos na indústria de óleo e gás (US$ 716 bilhões).

Em geração de energia, dois terços (US$ 298 bilhões) foram destinados a projetos de fontes renováveis, em comparação a US$ 132 bilhões em combustíveis fósseis e US$ 17 bilhões em tecnologia nuclear. O peso maior de investimentos também reflete a queda do custo das tecnologias eólica e solar, tornando-as muito competitivas.

Para a IEA, a eletricidade será a “estrela do show” das próximas décadas. Os investimentos estão em linha com projeções feitas por consultorias e grandes petroleiras de que não só as fontes renováveis vão deslocar boa parte dos combustíveis fósseis na produção de energia, como a própria eletricidade vai ganhar espaço nos sistemas de transporte e mobilidade, incluindo veículos de passeio. Segundo a agência, o pico de demanda de derivados de petróleo por veículos será alcançado já em meados da próxima década.

O consumo de petróleo resistirá um pouco mais, sustentado principalmente pelas necessidades petroquímicas e de segmentos de transporte como os de caminhões, aviões e navios. Mas a maioria das projeções trabalha com um horizonte entre 2030 e 2040 para a mudança da trajetória da curva de consumo de petróleo no mundo.

De acordo com a última versão do “BP Energy Outlook“, um dos mais respeitados estudos de projeção do setor energético mundial, as fontes renováveis e o gás natural responderão por 85% do crescimento do consumo primário de energia até 2040. A participação das renováveis (eólica e solar) no total do consumo primário de energia global sairá de 4% para 15% nos próximos 20 anos.

Em sentido contrário, a participação do petróleo, que hoje supera os 30%, ficará abaixo desse patamar em 2040, enquanto a fatia do carvão, hoje próximo de 30%, ficará em torno de 20% dentro de duas décadas. Em um cenário de mudanças mais agressivas na matriz energética, considerando um eventual sucesso na implantação dos objetivos do Acordo de Paris, a participação das renováveis pode alcançar 29%, enquanto a fatia de carvão pode cair a 7% em 2040.

A transição energética é baseada nos três “Ds”: descarbonização (redução de emissões de gases do efeito-estufa), digitalização (aplicação de novas tecnologias para aumentar a eficiência e a produtividade) e descentralização (produção de energia fora da rede e próxima do ponto de consumo).

As grandes companhias de energia e petróleo já fizeram essa leitura. A francesa Engie, conhecida historicamente por suas atividades relacionadas a carvão e gás natural, mudou drasticamente sua orientação estratégica e destinará quase um quarto de seus investimentos até 2021 (cerca de € 12 bilhões) em fontes renováveis.

A italiana Enel, por sua vez, planeja destinar 42% dos investimentos previstos para 2019-2021, de € 27,5 bilhões, em fontes renováveis (hidrelétricas, eólicas e solares). Considerando novos projetos (€ 16,5 bilhões), a parcela para renováveis é de 64%. Na mesma linha, a espanhola Iberdrola dedicará 40% de seus investimentos até 2022, de € 34 bilhões, em renováveis.

Entre as petroleiras, a situação não é diferente, embora em menor proporção. A norueguesa Equinor, que até 2018 se chamava Statoil e que alterou seu nome justamente para se posicionar como empresa de energia, inaugurou no fim de 2018 seu primeiro projeto de geração solar no mundo, localizado em Quixeré, no Ceará, com 162 megawatts (MW) de capacidade, em parceria com a Scatec Solar, empresa da qual a norueguesa adquiriu 10% de participação acionária.

A Equinor, que já é um dos principais players mundiais em geração de energia eólica offshore (marítima), firmou parceria no ano passado com a Petrobras para estudar o desenvolvimento da tecnologia no Brasil, incluindo a implantação de um projeto piloto.

A estatal brasileira, que definiu em seu plano estratégico 2040 “atuar em negócios de energia renovável de forma rentável, com foco em eólica e solar no Brasil”, também está dedicando atenção à transformação digital. A área da empresa criada para essa finalidade completou um ano em abril. “No início de 2018, 10% dos projetos da carteira de pesquisa e desenvolvimento envolviam temas de tecnologia digital. Em dezembro, 27% tinham elementos de tecnologia digital”, conta o gerente geral de transformação digital da Petrobras, Augusto Borella.

A Shell lançou a meta de fornecer energia elétrica para 100 milhões de pessoas no mundo até 2030. Em 2017, a companhia adquiriu a New Motion, empresa de recarga para veículos elétricos, com mais de 30 mil estações de carregamento na Europa. No Brasil, a Shell montou uma comercializadora de energia e participa de investimentos em geração termelétrica a gás natural.

“A pressão da sociedade, e agora de investidores institucionais, sobre esse tema [mudança climática] tornou-se gritante. E é muito mais forte na Europa. As empresas estão reagindo ao ambiente em que estão inseridas”, explica José de Sá, especialista em petróleo e diretor no escritório da consultoria Bain & Company no Rio.

“O millennial [nascidos entre 1980 e 2000] pede que a empresa seja uma viabilizadora de um mundo de baixo carbono. A sociedade não aceita mais uma posição passiva dos setores”, diz.

Em estudo lançado este ano, a Bain & Company fez um diagnóstico da situação das refinarias do planeta e indicou as necessidades de investimentos em digitalização para torná-las mais eficientes e adequadas aos novos tempos. “Todo mundo vê a década de 2020 como a ‘survival of the fittest” [sobrevivência dos mais fortes], especialmente na Europa. Tornou-se muito importante você fazer os ativos ‘transpirarem’, ou seja, tirar o máximo deles. E a digitalização tem essas ferramentas”, acrescenta.

Um exemplo é o investimento feito pela petroleira britânica BP, que instalou sistema de geração de vapor a partir do gás de exaustão na refinaria de Whiting, nos EUA. De acordo com a empresa, a medida reduz a quantidade de vapor gerado a partir das caldeiras, o que, por sua vez, reduz a quantidade de combustível queimado e de emissão de gases de efeito-estufa.

Sobre a transformação digital, Marco Biselli, sócio da Boston Consulting Group (BCG), diz que o primeiro passo para as companhias é definir com clareza o objetivo e identificar o que tem potencial de valor para a maioria dos resultados do negócio. “É importante definir primeiro qual é o grande problema, qual a grande ineficiência e a melhoria nos resultados que você quer alcançar. E em que o ‘digital’ e os ‘analytics’ [camadas analíticas] podem te ajudar.”

Segundo ele, a criação da plataforma de dados e a construção de algoritmos normalmente demandam 30% do esforço necessário para capturar valor da solução a ser implementada. Os outros 70% do esforço estão em mudar o processo de negócios para usar a solução e chegar ao resultado.

Com relação ao terceiro “D”, a descentralização, os investimentos feitos em geração distribuída por meio de painéis solares fotovoltaicos totalizaram US$ 60 bilhões em 2017, de acordo com a IEA. Apenas naquele ano foram adicionados 35 gigawatts (GW) de capacidade de geração solar de pequeno porte em instalações residenciais e de estabelecimentos comerciais, enquanto o custo dos equipamentos continua em queda livre, com o ganho de escala.

“Vemos um esforço muito grande para descarbonizar a matriz elétrica. E abrem-se soluções ‘off-grid’ [fora da rede], com base em fonte renovável. Assim, a [fonte] solar adquire um peso maior. Essa é a solução que temos visto para endereçar o problema de matrizes muito intensivas em carbono”, diz Clarissa Lins, sócia-fundadora da consultoria Catavento.

Em parceria com o Centro Brasileiro de Relações Institucionais (Cebri), a consultoria realizou estudo sobre o impacto das mudanças climáticas e o potencial efeito de soluções nas grandes cidades. Segundo Bruna Mascotte, especialista da Catavento e uma das responsáveis pelo estudo, as cidades são responsáveis por 80% do PIB mundial e por 70% das emissões de gases do efeito-estufa. Em 2050, 70% da população global estarão em centros urbanos, em comparação a 55% atualmente.

Se a transição energética ameaça o reinado das grandes petroleiras, a descentralização tira o sono das distribuidoras de energia. Nessa linha, grandes grupos de energia estão investindo em diversificação de seus negócios, atuando também em geração distribuída e em prestação de serviços de energia a clientes, buscando compensar a potencial perda de receita no negócio de distribuição.

A Enel planeja investir € 1,1 bilhão até 2021 na “Enel X”, empresa de prestação de serviços e soluções de energia do grupo italiano. No mesmo horizonte, a Engie pretende investir até 5€ bilhões para a mesma finalidade.

No âmbito da transição energética e da descentralização, empresas do setor estão se debruçando também em pesquisas sobre tecnologias de armazenamento de energia, para estabilizar a produção de fontes intermitentes (eólica e solar) ou para aperfeiçoar baterias para veículos elétricos.

“Penso que, em curto e médio prazos, o custo das tecnologias de armazenamento continuará elevado e não competitivo”, avalia o vice-presidente de marketing e desenvolvimento de negócios da Rosatom Overesas, subsidiária do grupo russo nuclear Rosatom, Anton Moskvin. O conglomerado tem investido no desenvolvimento de reatores nucleares de pequeno porte, tidos como a aposta da indústria nuclear para a próxima década, por terem menor impacto socioambiental e com possibilidade de instalação próximo aos centros de consumo.

Fonte: Valor