28/06/2019 – O biodiesel produzido no Brasil, que já conta com uma das especificações mais rigorosas do mundo, está prestes a dar mais um salto de qualidade. Nesta sexta-feira (28/06), durante reunião no Ministério de Minas e Energia (MME), o Instituto Nacional de Tecnologia (INT), integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), apresentou os resultados dos testes que vão subsidiar a alteração do valor mínimo de estabilidade oxidativa do biodiesel puro e em misturas com o diesel fóssil.

O aumento do valor da estabilidade de 8h para 12h do biodiesel puro para que em misturas com o diesel alcance no mínimo 20h com adição de antioxidantes foi uma demanda do setor automotivo para viabilizar o avanço da adição obrigatória de biodiesel para 11% ainda este ano, com evolução de 1% ao ano até chegar a 15% em 2023, conforme cronograma do Conselho Nacional de Política Energética.

A proposta foi bem aceita pelos produtores de biodiesel representados pela Ubrabio (União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene). Durante a reunião, o presidente Ubrabio, Juan Diego Ferrés, saudou a Anfavea e o Sindipeças por sua postura “inequivocamente positiva para o setor, que foi pragmática, vai trazer avanços para o biodiesel no Brasil e ganhos econômicos e de saúde à sociedade”. Para Ferrés, os resultados do INT foram bastante conclusivos e darão conforto para o avanço de mistura previsto em lei.

Agora, o próximo passo para que o B11 (11% de biodiesel) possa entrar em vigor o mais breve possível será a consulta e audiência pública da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis sobre a proposta de alteração da especificação que trata da estabilidade [saiba mais aqui].

Já o secretário de Petróleo, Gás e Biocombustíveis do MME, Márcio Félix, afirmou que a reunião resultou em avanços para a implantação do B11.

Confira abaixo a entrevista exclusiva com o pesquisador do INT Eduardo Cavalcantti, que explica o que os testes avaliaram e como essa alteração vai beneficiar os consumidores:

Ubrabio: Como funciona o INT?

Eduardo Cavalcantti: O laboratório de corrosão do Instituto Nacional de Tecnologia é um laboratório acreditado pelo Inmetro para realização de ensaios de estabilidade para biodiesel, diesel ou misturas diesel e biodiesel. O INT é um órgão de administração direta integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações que foi fundado em 1921 e, desde então, realiza pesquisas e testes demandados pelo setor produtivo ou pelo setor de serviços, principalmente. Além de receber apoio de agências governamentais como Finep e CNPq.

 U: Como essa demanda dos testes chegou até vocês?

EC: Há alguns anos, nós começamos a estudar o que chamamos de estabilidade e armazenamento, que é a garantia de que um combustível chegue ao consumidor final dentro das características praticamente originais da sua fabricação. Mais recentemente, um relatório de um grupo de trabalho coordenado pelo MME sinalizou que deveriam ser avaliadas algumas situações levantadas pelo setor de autopeças e de veículos (como o Sindipeças e ANFAVEA). Segundo eles, nem todo biodiesel que chegava às bases para serem formuladas as misturas B10 estavam dentro das especificações comumente empregadas na Europa, ou seja, o biodiesel precisaria ser aditivado com antioxidante de forma que, uma vez adicionado ao diesel, garantisse que em bases remotas do Brasil a mistura tivesse condições ideais para consumo. Partindo dessas conclusões, as associações de produtores de biodiesel nos procuraram para uma avaliação se, com os antioxidantes disponíveis no mercado e nas dosagens recomendadas por esses fabricantes, seria possível obter um biodiesel com índice de estabilidade oxidativa superior a 12 horas, como é comumente adotado na Europa.

U: Quais foram as principais conclusões?

EC: Com base numa metodologia já desenvolvida pelo INT, foi possível demonstrar que ao adicionar os antioxidantes, o biodiesel puro alcança a estabilidade de 12h e também atinge índices acima de 20 horas quando em adição ao diesel. Outra conclusão importante é que não depende só da indústria de biodiesel garantir a qualidade no final da entrega do combustível (diesel + biodiesel) ao consumidor. Existem inúmeras recomendações de adoção de boas práticas de armazenamento, transporte ou de manutenção que estão além da competência da indústria de biodiesel.

U: Então com o aumento da estabilidade isso vai garantir maior segurança para o consumidor?

EC: Sem dúvida. Em um país continental como o Brasil, é importante que o combustível possa chegar aos postos de diferentes regiões com qualidade assegurada.

U: Isso vai aumentar o custo da produção que poderia afetar depois os custos nas bombas?

EC: O custo adicional é de centavos por litro, o que acaba sendo irrisório na conta final. Além disso, é um investimento que vale a pena, já que teremos a segurança de entregar um combustível  renovável que além de todos os benefícios socioeconômicos e ambientais, conta com a garantia de estabilidade para os casos mais extremos ou mais distantes no país.

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