Co-produto que representa 10% do volume de biodiesel produzido conquista mercado global, impulsiona exportações nacionais e barateia o preço final dos combustíveis.

A expansão da produção de biodiesel no Brasil vem impulsionando um mercado bilionário e altamente versátil: o da glicerina. Gerada como um co-produto que representa aproximadamente 10% de todo o volume de biodiesel fabricado, a glicerina bruta tem deixado de ser vista como um mero descarte para se consolidar como uma peça-chave do agronegócio e da indústria química nacional. Com a elevação da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel, a oferta desse insumo cresce aceleradamente no país, abrindo oportunidades em diversos setores que vão de cosméticos e medicamentos a resinas e ração animal.

De acordo com João Artur Manjabosco, especialista em co-produtos das cadeias de soja e biodiesel, essa transformação alterou profundamente a dinâmica financeira das usinas. Atualmente, a glicerina deixou de ser um passivo ambiental para se tornar um ativo financeiro estratégico na composição de custos do biocombustível. “No passado ele era tratado como um resíduo, depois passou a ser tratado como um subproduto e hoje a indústria já considera ele parte da matriz da precificação da cadeia do biodiesel”, explica Manjabosco. Essa mudança permite que as usinas de biodiesel agreguem mais valor à sua linha de produção, resultando, consequentemente, em preços mais competitivos do combustível na bomba para o consumidor final.

O impacto econômico desse mercado também se reflete fortemente na balança comercial brasileira. O Brasil se consolidou como o segundo maior produtor mundial de biodiesel, com uma produção anual de cerca de 10 bilhões de litros, ficando atrás apenas da Indonésia. Diante desse volume expressivo, o país exportou 460 milhões de dólares em glicerina no ano passado e caminha para atingir quase 1 bilhão de dólares em exportações neste ano, tendo como principal destino da glicerina bruta o mercado chinês. Além disso, a capacidade de refino de algumas usinas nacionais permitiu que o produto processado alcançasse 76 países no último ano.

A força da glicerina reside na sua extraordinária versatilidade, contando com mais de 4 mil aplicações diretas e indiretas. Cerca de 40% da demanda global do produto é direcionada para a fabricação de epicloridrina, um composto químico que serve de base para resinas epóxi utilizadas na construção civil. No mercado doméstico, além de abastecer produtos cotidianos de higiene como cremes e pastas de dente, a glicerina bruta encontra espaço na nutrição animal, onde o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) autoriza uma mistura de até 10% nas rações, aproveitando o sabor adocicado do insumo para favorecer a alimentação de ruminantes.

Enquanto os Estados Unidos e a Europa enfrentam um cenário de produção estável ou em declínio de biodiesel, o Brasil se destaca pelo amadurecimento e crescimento contínuo de seu programa energético. Essa disparidade produtiva posiciona o país de forma vantajosa no comércio exterior, garantindo mercado cativo para os excedentes de glicerina nos próximos anos. Para Manjabosco, o fortalecimento dessa cadeia fecha um ciclo sustentável e benéfico para o campo: “Sem dúvida teremos ainda mais mercado para esse produto. Isso lá no final agrega valor ao produtor rural que é o mais importante”

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