Safra recorde na América do Sul e estoques elevados nos Estados Unidos mantêm pressão sobre o mercado, enquanto custos de produção, petróleo e margens de esmagamento sustentam os preços no curto prazo
O mercado global de soja segue dividido entre fundamentos amplamente baixistas do lado da oferta e fatores externos que continuam oferecendo sustentação às cotações. A avaliação consta no Relatório de Inteligência de Mercado da Soja – Semana 19/2026, divulgado pela MerX, que aponta viés altista no curto prazo e perspectiva baixista no médio prazo para o complexo soja.
Entre os principais fatores de suporte está a valorização do óleo de soja, ainda sustentada pelo cenário geopolítico envolvendo Estados Unidos e Irã e pelos reflexos sobre o petróleo e o mercado global de biodiesel. Embora o rally recente tenha perdido força, as cotações permanecem em níveis historicamente elevados, próximas de US$ 74,8 por tonelada curta, ante cerca de US$ 50 no início do ano — valorização superior a 49% no período. Segundo o relatório, o ambiente segue favorável às margens de esmagamento, com indústrias processadoras disputando matéria-prima com exportadores.
O avanço dos custos de produção também permanece no radar. Diesel e fertilizantes acumulam alta próxima de 40% desde o início das hostilidades no Oriente Médio, pressionando o custo de produção da soja tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. A análise destaca que, no mercado brasileiro, a exposição ao aumento dos insumos é mais ampla e deve resultar em reajuste natural do breakeven da cultura, estimado em aproximadamente US$ 1 por bushel no piso de preços da soja.
Do lado baixista, o mercado continua pressionado pela ampla disponibilidade global de grãos. Nos Estados Unidos, os estoques trimestrais atingiram 57,3 milhões de toneladas, acima da média histórica e do volume registrado no ano anterior. O relatório aponta que tanto os estoques on-farm quanto off-farm registraram crescimento expressivo, reforçando o quadro de abundância de oferta já precificado pelo mercado.
Na América do Sul, a safra recorde também segue consolidada. Brasil, Argentina e Paraguai devem produzir juntos cerca de 244,3 milhões de toneladas, crescimento de 5,9% frente à temporada anterior. A análise ressalta que o aumento do esmagamento global ainda não acompanha o mesmo ritmo de expansão da oferta, o que mantém pressão sobre os prêmios e sobre o basis nas origens sul-americanas.
No Brasil, a colheita se aproxima do encerramento, com 94,7% da área já colhida. A produção nacional foi consolidada em 183,3 milhões de toneladas, avanço de 5,9% em relação ao ciclo anterior, confirmando o caráter recorde da safra brasileira. O Rio Grande do Sul, que concentrava parte das preocupações ao longo do ciclo, deve encerrar a temporada dentro da normalidade histórica.
Na Argentina, a colheita avança em ritmo considerado favorável, apesar do atraso frente à média histórica. Os rendimentos seguem entre os mais elevados dos últimos cinco anos, com produtividade média próxima de 3,5 toneladas por hectare. A produção argentina está estimada em 48,5 milhões de toneladas, podendo alcançar 50 milhões de toneladas caso as condições climáticas favoráveis persistam nas próximas semanas.
No mercado doméstico brasileiro, a combinação entre câmbio valorizado, custos logísticos elevados e margens positivas do esmagamento segue sustentando o basis. O relatório destaca ainda que a China mantém ritmo firme de compras no Brasil, enquanto reduz a absorção de soja norte-americana, movimento que intensifica a competição pela originação do grão no mercado interno.
De forma geral, a análise da MerX indica que o mercado global de soja permanece sustentado no curto prazo por fatores ligados ao complexo soja, aos custos de produção e à dinâmica do óleo, mesmo diante de um ambiente estruturalmente pressionado pela ampla oferta global.