Estoques recordes nos Estados Unidos e safras robustas na América do Sul pressionam o mercado, enquanto custos elevados, valorização do óleo de soja e margens de esmagamento sustentam os preços
O mercado global de soja mantém viés altista no curto e médio prazo, mesmo diante de um cenário de ampla disponibilidade de grãos. A avaliação consta no Relatório de Inteligência de Mercado da Soja, divulgado esta semana pela MerX, que destaca a combinação entre custos elevados de produção, dinâmica do óleo de soja e fatores geopolíticos como elementos de sustentação das cotações.
Entre os principais vetores altistas está o desempenho do óleo de soja, que mantém trajetória de valorização expressiva ao longo do ano, com preços próximos a US$ 72, ante cerca de US$ 50 no início do período. Segundo o relatório, esse movimento está diretamente relacionado ao cenário geopolítico no Oriente Médio e à alta do petróleo, fatores que sustentam as margens de esmagamento em nível global e intensificam a disputa entre esmagadores e exportadores pelo grão disponível.
Do lado da oferta, o cenário permanece pressionado. Nos Estados Unidos, os estoques atingiram níveis recordes, com volumes on-farm de 24,5 milhões de toneladas e off-farm de 32,8 milhões de toneladas, reforçando a percepção de abundância global. Na América do Sul, tanto Brasil quanto Argentina contribuem para esse quadro, com safras robustas e rendimentos acima da média recente.
No Brasil, a colheita alcança 88,1% da área, próxima à média histórica, com destaque para rendimentos elevados na maior parte das regiões produtoras. No entanto, as condições climáticas seguem como fator de atenção, especialmente no Sul e em partes do Centro-Oeste, onde as chuvas têm dificultado o avanço das operações e elevado o risco de deterioração da qualidade dos grãos, com impacto potencial sobre os padrões de exportação e os prêmios no mercado físico.
Na Argentina, a colheita avança mais lentamente, atingindo 10,2% da área, abaixo da média histórica. Ainda assim, os rendimentos iniciais indicam produtividade superior à dos últimos anos, e as condições climáticas permanecem favoráveis, sustentando a expectativa de uma safra robusta e com baixo risco produtivo.
No mercado internacional, o fluxo comercial segue influenciado pela demanda chinesa. Desde o início de 2026, a China já adquiriu cerca de 11,5 milhões de toneladas de soja americana, frente a uma meta de 25 milhões de toneladas para o ano, mantendo o país como importante direcionador dos fluxos globais.
No mercado físico brasileiro, a supersafra segue pressionando as origens, enquanto fatores como câmbio apreciado, aumento dos custos logísticos — especialmente do diesel — e disputa entre esmagadores e exportadores contribuem para sustentar o basis. O relatório destaca que o encarecimento do diesel, com alta próxima de 40%, tem impacto direto sobre os fretes e a formação de preços no interior.
De forma geral, a análise indica que, apesar da pressão estrutural da oferta, o mercado de soja permanece sustentado por fatores externos e pela dinâmica do complexo soja, com destaque para o óleo — variável-chave para as margens de esmagamento e para a formação de preços no curto e médio prazo.