Tendência ocorre mesmo com preço baixo, segundo panorama do setor até 2021; mudanças na economia da China e aumento da eficiência de veículos são principais causas

O ritmo de crescimento da demanda por petróleo deve cair nos próximos cinco anos: 1,2% ao ano, atrás da média de crescimento de 1,7% verificada em 2015. E isso mesmo com os preços baixos, o que, em tese, estimularia mais o consumo de óleo. A previsão é da Agência Internacional de Energia, que soltou nesta segunda-feira (22) seu relatório sobre o comportamento do mercado de petróleo no médio prazo.

Segundo a AIE, a demanda global por petróleo e derivados deve ultrapassar a marca dos 100 milhões de barris pela primeira vez em 2020 – mesmo ano em que, em tese, as emissões globais de gases de efeito estufa deveriam atingir o pico para que a estabilização das temperaturas globais fosse mais barata.

No entanto, o crescimento entre 2016 e 2021 ocorrerá a uma velocidade meio ponto percentual mais baixa que entre 2009 e 2015. Isso se deve a dois fatores principais: a desaceleração da demanda na China, que se afasta cada vez mais de uma economia muito intensiva em petróleo, e o aumento da eficiência dos veículos. Nos EUA, a pátria das SUVs, a eficiência dos motores cresce 2% ao ano, o que fará com que a demanda por gasolina fique praticamente estagnada até 2021. No restante da OCDE, haverá uma ligeira queda na demanda.

Em 2017, demanda e oferta de petróleo devem voltar a se encontrar, de acordo com previsão da AIE. A agência aposta na queda de produção do petróleo não-convencional (tight oil) nos Estados Unidos, empurrada pelos preços baixos, o que deve equilibrar disponibilidade e procura.

Mesmo assim, a avaliação é de que, a não ser que haja um grande evento geopolítico que altere o mercado de petróleo, o preço não deve se recuperar fortemente em curto e médio prazo – por causa da produção excedente nos últimos anos e porque a inovação tecnológica facilita a extração de petróleo do solo.

O relatório atualiza os dados da análise anterior, de 2015. A previsão de demanda global para 2020, de 100,5 milhões de barris por dia, supera em 1,4 milhão de barris o número publicado no ano passado. O aumento é estimulado pelos preços mais baixos. O diretor-executivo da AIE, Fatih Birol, alerta para a incerteza no cenário para o futuro. “É fácil para os consumidores sejam embalados em complacência por ações amplas e preços baixos de hoje, mas eles deveriam prestar atenção ao que se desenha: os cortes de investimento histórico que estamos vendo aumentam as chances de surpresas desagradáveis sobre a segurança de petróleo em um futuro não muito distante.”

Investimentos

O contínuo declínio dos preços afetou o caixa das companhias de petróleo, o que aumenta a probabilidade de atrasos em projetos. “Nossas projeções são altamente vulneráveis ​​às incertezas em torno dos preços do petróleo, alterando as taxas de juros, o ritmo de investimento na oferta e questões geopolíticas.”

Mas a análise não ignora a inovação tecnológica que barateia a exploração, o que deve ressuscitar outros investimentos. “Embora atualmente haja grandes cortes, não há dúvida de que muitos projetos atualmente em espera serão reavaliados e terão custos mais baixos do que se pensava ser possível há alguns anos.”

A análise dedica um longo trecho ao Brasil. A crise na Petrobras rebaixou as perspectivas de fornecimento de petróleo brasileiro desde o último relatório. Mesmo assim, em 2021 o país deve ficar em segundo lugar na oferta de petróleo fora dos países da Opep, atrás apenas dos Estados Unidos e empatado tecnicamente com o Canadá. O país deve entregar 3,36 milhões de barris diários de petróleo em 2021 – em 2015 foram 2,5 milhões de barris por dia.

“A Petrobras lida não só com os preços mais baixos do petróleo, mas também com um escândalo de corrupção, atrasos em licitações e unidades de produção, contraindo enormes dívidas e problemas econômicos e políticos mais amplos”, diz a AIE. A expectativa de aumento na produção se deve às novas instalações, que devem mais do que compensar o declínio em alguns campos de produção, de acordo com o relatório.

A AIE aposta também no aumento da produção de biocombustíveis no Brasil – parte do plano climático do país apresentado às Nações Unidas na conferência do clima. Em 2015, por exemplo, o consumo de etanol hidratado aumentou cerca de 40%, devido ao aumento do preço da gasolina na bomba, além da queda no preço do açúcar – o que tornou a produção de etanol de cana-de-açúcar mais vantajosa para o setor. Porém, neste ano deve haver uma recuperação do preço do açúcar, desacelerando o crescimento.

O potencial de aumento na produção do biodiesel está associado a um aumento gradual da participação na mistura do diesel comum, dos atuais 7% para 10% nos próximos três anos. “No entanto, a atual crise econômica vai compensar o aumento da demanda [por biocombustíveis]”, alerta a agência, destacando a queda de vendas de veículos “flex”.


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