Na tentativa de evitar o aumento na emissão de dióxido de carbono na atmosfera, causado pela aviação civil comercial, Boeing e Embraer se uniram em 2013 para criar o primeiro Centro de Pesquisas na América do Sul especializado em combustíveis renováveis

No Brasil, um dos líderes no setor de biocombustíveis, estuda-se a adoção de políticas públicas para que nos próximos anos seja possível igualar o custo de produção dos combustíveis renováveis com o combustível fóssil. Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), os gastos com combustíveis fósseis representam quase metade do custo total das passagens aéreas.

Com a utilização de um combustível renovável, a possibilidade de redução de emissões dos gases do efeito estufa no setor aéreo pode chegar a 80%. Atualmente, no Brasil, existe apenas uma empresa com tecnologia suficiente para produção de bioquerosene, a Amyris. A refinaria, localizada em Brotas, São Paulo, custou US$ 50 milhões e produz 40 milhões de litros/ano.

O primeiro vôo comercial brasileiro

Preocupadas com a sustentabilidade e preservação do meio ambiente, TAM, Azul e a própria Gol já haviam realizado vôos experimentais com o bioquerosene. A diferença é que, na realização dos primeiros testes, não havia nenhum passageiro nas aeronaves.

Em outubro de 2013 o Brasil realizou o seu primeiro vôo comercial utilizando biocombustível. Uma aeronave da companhia Gol Linhas Aéreas, partiu do Aeroporto de Congonhas, São Paulo, com destino ao Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, em Brasília.

O vôo foi apoiado por várias instituições importantes, Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), GE, Boeing e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Arnaldo Vieira de Carvalho, especialista em energia e líder da iniciativa de Biocombustíveis Sustentáveis para Aviação do BID, comenta que os testes na aviação civil brasileira podem ser o primeiro grande avanço para o desenvolvimento sócio-econômico da América Latina e Caribe. “O biocombustível em geral, e em particular para a aviação, é um instrumento eficaz para acelerar o desenvolvimento da região, atrair mais investimentos aos países, gerar empregos, aumentar a receita empresarial, trazer tecnologia de ponta e desenvolvimento rural de forma sustentável”, afirma.

Fapesp

No último Workshop realizado em Abril pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Holanda e Brasil discutiram a estruturação de um programa de pesquisa e inovação na área de biocombustível, o BASIS Programme.

O encontro propôs a criação de uma infraestrutura com a intenção de alavancar a cooperação entre os dois países a partir da colaboração existente entre o Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen) e a Fundação BE-Basic, consórcio público-privado holandês composto, principalmente, por universidades, instituições científicas e empresas holandesas.

Criado em 2009 pela Fapesp, o programa Bioen é composto por 400 pesquisadores em projetos em bioenergia, 60 deles estão ligados a centros de pesquisa de países como Holanda, Reino Unido, França, Estados Unidos e Dinamarca, no qual mantém parcerias com empresas importantes do setor: Braskem, Oxiteno, Microsoft, Boeing e Dedini.

Para o presidente da Fundação BE-Basic e coordenador do Worshop, Luuk Van der Wielen, o acordo entre as duas instituições ajuda a avaliar melhor os temas sustentabilidade da produção do etanol, os impactos da produção de biocombustível e o manejo sustentável do solo na produção de biomassa. “Estamos muitos satisfeitos com as pesquisas que apoiamos em colaboração com a Fapesp. O BE-Basic quer agora estender essa importante parceria, que significa um bom ponto de partida para avançarmos com a participação de outras organizações holandesas e brasileiras”, afirmou Wielen.

Produção Comercial

O Brasil é reconhecido internacionalmente por sua grande matriz energética, que agrega produção sustentável, segurança alimentar e desenvolvimento rural. Mesmo com a tecnologia já existente para a produção do bioquerosene, o País esbarra na falta de incentivo e de políticas públicas para a criação de uma indústria de bioquerosene para aviação civil.

Para o diretor de operações da companhia Gol Linhas Aéreas, Pedro Scorza, é necessário que o governo reduza o ICMS para combustíveis com misturas com até 10%, baixando a alíquota de 25% para 12%. Com essa redução, os preços se igualariam com os combustíveis fósseis, estimulando a procura pelo produto alternativo.

Dados da ABEAR mostram que o Brasil consome atualmente 7,3 bilhões de litros de querosene na aviação, dos quais um terço em São Paulo. Atualmente, o litro de bioquerosene custa R$7,50 e o do combustível fóssil R$2. Para o vôo realizado em outubro de 2013, a Gol gastou o dobro de um vôo normal e ainda contou com patrocínio de parceiros como Boeing, GE e outros integrantes da Plataforma Brasileira de Bioquerosene.

A Plataforma almeja a elaboração de programas pro- bioquerosene, o que já existe para outras fontes renováveis como álcool e biodiesel, que estabelecem desoneração da produção por um período inicial, ou uma política que estabeleça níveis mínimos de mistura.


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