Uma parte dos avanços tecnológicos que vão ajudar a ampliar a matriz energética do país com fontes renováveis está aqui, na Universidade de Brasília. A produção de conhecimento sobre biocombustíveis encontra na capital federal um de seus espaços mais criativos. O UnB Ciência vai apresentar durante os próximos dias algumas das pesquisas desenvolvidas sobre o assunto na universidade. “O diferencial da instituição em relação às outras  é seu foco ambientalista voltado para desenvolver energias verdes”, explica Luiz Vicente Gentil, pesquisador da Faculdade de Agronomia e autor do livro de 202 Perguntas sobre biocombustíveis.

Segundo o professor, a UnB está entre as dez universidades mais importantes nesse setor, grupo que é liderado pela UNICAMP, pela USP e pela UFRJ. Na universidade ao menos seis grandes áreas trabalham na elaboração de tecnologias para os biocombustíveis: Agronomia, Engenharia Florestal, Química, Desenvolvimento Sustentável, Biologia Celular e Engenharia Mecânica. Pelo menos dez pesquisadores destas áreas lideram trabalhos de mestrado e doutorado na UnB. O UnB Ciência vai apresentar durante os próximos dias algumas das pesquisas mais promissoras desenvolvidas sobre o assunto na universidade.

As reportagens vão explicar o que são as tecnologias e como elas podem contribuir, na prática, para ampliar a produção, criar formas sustentáveis de aproveitar resíduos florestais e agrícolas e alternativas para o desenvolvimento social e econômico do país com a exploração dos novos produtos.

Os biocombustíveis são vistos atualmente como alternativa viável aos derivados do petróleo – mais poluentes e cada vez mais caros. A diferença deles para os combustíveis fósseis é a matéria prima: a fabricação parte da biomassa animal ou vegetal. No fim das contas podem ser usados como fontes de energia elétrica, em usinas termelétricas, mecânica, em veículos, ou mesmo para gerar o calor necessário em certos processos industriais.

Uma das pesquisas criou uma tecnologia que acelera a produção de biodiesel. O sistema desenvolvido na UnB produz o combustível a partir de qualquer matéria prima de forma contínua, ou seja, enquanto o sistema for abastecido com as substâncias usadas na reação química que origina o produto o processo não para. Na tecnologia aplicada atualmente as mesmas substâncias são colocadas dentro de um reator, depois que a reação termina a produção precisa ser interrompida para reabastecer o equipamento.

Outra pesquisa se propõe a mapear todas as características de briquetes produzidos com vários materiais. Os briquetes são cilindros de material prensado de origem florestal ou agrícola. Como são mais densos do que a matéria prima eles guardam uma quantidade maior de energia no mesmo espaço. O estudo vai definir quais são os mais resistentes e que armazenam mais energia em um volume menor de material. Além disso, os pesquisadores vão testar uma metodologia para medir todas essas características a partir de um sensor que detecta a velocidade de ondas de impacto no material.

A fabricação de carvão vegetal a partir do bambu também é objeto de pesquisa desenvolvida na universidade. O estudo vai mensurar quanta energia pode ser produzida pela queima do carvão de uma espécie de bambu gigante em comparação ao que é produzido a partir do eucalipto. O eucalipto já é usado para fabricar carvão, mais demora mais que o bambu para chegar á idade de corte. Os dois estudos – dos briquetes e do bambu – foram realizados em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

Além disso, o Departamento de Biologia Celular possui uma longa tradição no estudo de enzimas que degradam a celulose com o objetivo de transformar em etanol. O sonho de produzir o chamado etanol de segunda geração – que daria um destino para resíduos constituídos de celulose, como o bagaço de cana – está presente em estudos como o desenvolvido pelo professor Marcelo Vale. A pesquisa pretende produzir essas enzimas a partir de bactérias retiradas do estômago de cabras.

Tudo isso acontece em um país que se destacou por produzir, exportar e consumir álcool combustível de cana ainda no final da década de 70. Hoje, com mais de 30 anos de pesquisas na área, o Brasil é reconhecido mundialmente pelo pioneirismo no desenvolvimento de novas tecnologias de biocombustíveis.

O cenário é de crescimento e diversificação de novas fontes. Atualmente mercado e sociedade descobrem as vantagens dos biocombustíveis com o reaproveitamento de resíduos agrícolas e madeireiros e a pesquisas em variedades novas de óleos vegetais para a fabricação de biodiesel. “Esse é o futuro da matriz energética do país – quanto mais variadas as fontes de energia melhor”, aposta o professor Luiz Vicente Gentil. “Assim conseguimos garantir o desenvolvimento econômico com sustentabilidade”. Se depender do empenho de pesquisadores como os da UnB a previsão do especialista está a cada dia mais perto de virar realidade.


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