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Por Gabriel Cavados – gerente de negócios da Wärtsilä Brasil ltda.

Postos sem combustíveis, falta de produtos nos supermercados, pessoas impossibilitadas de se deslocar no mercado de trabalho e racionamento de água por insuficiência de químicos. Foram esses alguns exemplos de problemas básicos enfrentados pela sociedade na recente crise no transporte rodoviário, que causou um certo caos temporário na vida de todos os brasileiros.

Entre os principais culpados pela crise mencionados estavam: a Petrobras e sua política “injusta” de preços, o governo e sua incapacidade de negociação, os impostos (sempre eles) que elevam os preços dos combustíveis a patamares de maiores do mundo. E existem até mesmo que acham que a culpa era dos próprios caminhoneiros ou das empresas transportadoras.

Entretanto, o que mais chama atenção é que ninguém questiona e tampouco discute o verdadeiro problema brasileiro: a nossa falta de opções e alternativas de transporte. A nossa sociedade, seja por falta de esperança ou por acomodação, aceita o fato de ter que enfrentar horas no trânsito das grandes cidades, muitas vezes congestionado por veículos pesados, muitas vezes em trajetos que poderiam ser feitos por outros meios de transporte, mais confortáveis e eficientes.

É inaceitável para um país das dimensões do nosso ter que subsidiar um combustível de uso tão ineficiente para evitar um cenário de total paralisação da produção. Grande parcela da nossa economia está ancorada em apenas uma fonte de energia e a sua escassez, mesmo que momentânea, gera um cenário de total desabastecimento. Esta dependência do diesel rodoviário nos deixa em situação frágil, onde qualquer perturbação é capaz de gerar um impacto muito grande na economia.

Que lições podemos tirar da recente crise para o mercado de energia elétrica? Nós temos que explorar e desenvolver todas as nossas alternativas e opções energéticas: hidroeletricidade, biomassa, biodiesel, vento, sol e gás natural são escolhas abundantes, locais e que devem ser exploradas em plena capacidade. A pluralidade de fontes energéticas é fundamental para um sistema seguro, acessível e sustentável.

Que bom exemplo tivemos com os carros bi-combustíveis de transporte de pessoas, que, por terem a opção de funcionar também a gás natural, amenizaram a vida daqueles que têm condições de arcar com o seu custo. Esse é o tipo de escolha que devemos fazer. Quando temos um sistema balanceado, com inúmeras opções de fontes energéticas, as desvantagens de uma é compensada pelas vantagens de outras: quando não chove, venta; em períodos de seca, temos biomassa; quando a natureza fica imprevisível, aciona-se o seguro das térmicas a gás natural.

A natureza não entra greve e não se autobloqueia. Portanto, devemos explorar o nosso imenso potencial de energia renovável, com hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa com papel de fornecer a energia de base do nosso sistema, com custo muito baixo. Usinas termelétricas a gás natural, atuando somente em períodos de incerteza, complementam o sistema fornecendo segurança operacional para maximização de energia verde. A recente crise dos transportes nos mostra o óbvio esquecido: a dependência de uma única fonte nos coloca em posição de fragilidade quando algo imprevisível acontece. Explorar as nossas fontes energéticas locais e renováveis é o nosso caminho para uma sociedade madura, segura e ambientalmente justa.

Fonte: DCI