O grão pode ser usado na produção de biocombustível

Neste mês de julho, produtores rurais do Distrito Federal e regiões do Entorno estão realizando a colheita do crambe. A cultura produz pequenos grãos ricos em óleo, que pode ser usado na produção de biodiesel.

O óleo de crambe tem duas características principais favoráveis à produção de biocombustível. A primeira é a estabilidade à oxidação, além disso, ele não se solidifica facilmente – isso só ocorre em temperaturas muito baixas, que raramente são registradas no Brasil. De acordo com a pesquisadora Simone Palma Favaro, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), unidade Agroenergia, tal característica o torna especialmente útil para melhorar a qualidade do biodiesel produzido a partir de misturas com sebo bovino. Essa matéria-prima já é a segunda mais utilizada pelas usinas no Brasil, mas tem um problema: ela se solidifica em temperaturas amenas, como as encontradas na região Sul. “O óleo de crambe pode ser adicionado à mistura do sebo com o óleo de soja, reduzindo esse problema”, explica Simone.

O óleo de crambe também tem aplicação na indústria química, particularmente na fabricação de tintas, vernizes, esmaltes e plásticos. A Caramuru Alimentos compra e processa o crambe há cinco anos e tem na exportação para a Europa o principal mercado, segundo informa o coordenador de negócios da empresa, Alex Lemos. O coordenado acredita que, principalmente pelo alto teor de óleo (superior a 30%), o produto pode ganhar também o mercado de biocombustíveis.

A empresa integra uma parceria entre com a Fundação MS e agricultores do Distrito Federal e Entorno, por meio da qual foram cultivados em 1,8 mil hectares de crambe na região, nesta safra. Em todo o Brasil, são 4,8 mil hectares. Este é o quarto ano em que o produtor rural Paulo Roberto Bonato planta crambe como cultura de safrinha. Na propriedade localizada no Distrito Federal, ele semeou 180 hectares desta oleaginosa, após a colheita do milho. “É uma cultura que plantamos após a safra de verão, no final das chuvas mesmo, quando não há mais tempo para a safrinha de sorgo ou de milho”, conta Bonato. A planta suporta ambientes com pouca água. “Com uma chuva para germinar, ela se desenvolve e consegue produzir”, relata Bonato.

Benefícios

O produtor diz que a rentabilidade com a venda da produção ainda não é alta, mas que o cultivo oferece outras vantagens. Cobertura do solo, rotação de culturas, reciclagem de nutrientes e redução de nematóides são os principais benefícios. Outra vantagem é que a planta produz substâncias que repelem naturalmente os insetos. Além disso, não exige uso de maquinários específicos. Para o plantio e colheita, podem ser utilizadas as máquinas empregadas nas lavouras tradicionais como a soja e o milho. Bonato considera que as semeadeiras são as mais adequadas para o plantio do crambe, dada a irregularidade do tamanho das sementes da cultura.

Embora possua um sistema radicular “agressivo”, que busca nutrientes, o crambe, como qualquer cultura agrícola, precisa de cuidados. O solo precisa estar corrigido, já que a planta é sensível à acidez e não tolera presença de alumínio. Sendo cultivado como safrinha, normalmente recebe o solo já corrigido e preparado para o plantio direto. Antes de semear, contudo, Bonato tem aplicado fertilizantes na área. Nesta safra, foram 150 quilos por hectares de NPK.

No Estado de Goiás, os melhores resultados com o crambe têm sido obtidos na região de Cristalina (GO) e no entorno da região do Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF), onde está a propriedade de Bonato. O engenheiro agrônomo Voney Jeziorny, da Fundação MS, tem acompanhado os plantios na região e diz que o clima do local, com temperaturas amenas durante o dia e noites frias, é ideal para o desenvolvimento da oleaginosa.

A Fundação MS está estudando mais de 90 linhagens de crambe, das quais 30 estão sendo testadas em Goiás. “Estamos buscando as que melhor se adaptam à região, identificando variedades precoces e tardias, bem como desenvolvendo pesquisas sobre adubação”, afirma. De acordo com Jeziorny, uma nova cultivar da oleaginosa já foi desenvolvida pela instituição e está em processo de registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimentom (Mapa).

Cenário e desafios

A pesquisadora da Embrapa Agroenergia, Simone Palma Favaro, lembra que o crambe foi introduzido no Brasil há mais de 20 anos e que vêm se desenvolvendo cultivares e sistemas de produção. Hoje, além de Goiás, há plantações no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além de áreas experimentais no Paraná e na Bahia. “A área cultivada não é muito extensa, mas os resultados que vêm sendo demonstrados em termos de produção e de ganhos obtidos na cadeia produtiva como um todo são bastante promissores”, opina Simone.

No entanto, pesquisas ainda são necessárias para o pleno estabelecimento do crambe como lavoura de importância comercial no Brasil. Na área agrícola, é preciso desenvolver mais materiais, com maior produtividade e resistência a determinadas doenças, além de otimizar o sistema de produção. Na indústria, o desafio é o aproveitamento dos resíduos e coprodutos. Um dos problemas é o que o farelo possui substâncias tóxicas, o que limita o uso como ração, principal destino da torta das oleaginosas. Na Embrapa Agroenergia, um projeto de pesquisa está desenvolvendo métodos ultrarrápidos para identificar e quantificar substâncias com potencial de utilização ou outras que são tóxicas na torta desse grão, bem como na de pinhão-manso. Essa identificação é necessária tanto para orientar processo de destoxificação quanto para fornecer dados aos programas de melhoramento genético.


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