Terminou nesta quarta-feira (30), em Brasília, o II Congresso Brasileiro de Pesquisa em Pinhão-manso, promovido pela Embrapa Agroenergia, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e a Associação Brasileira de Produtores de Pinhão-manso (ABPPM). Na quinta-feira (01), as discussões sobre a cultura continuam no Wokshop Pan-Americano de Sustentabilidade nos Plantios de Pinhão-manso.

O último dia do congresso começou com um panorama das pesquisas com a planta em outros países. No México, uma das regiões da qual a cultura é originária, foi identificada uma grande variabilidade genética da espécie. O teor de óleo nas sementes, por exemplo, variou de 24 a 60%, o que faz desses materiais excelentes fontes para cruzamentos em busca de cultivares com alta produtividade e boas características para a produção de biodiesel.  O coordenador do Instituto Nacional de Pesquisas Florestais daquele país, Alfredo Zamarripa Colmenero, mostrou os resultados do acompanhamento de plantações durante quatro anos. Os pesquisadores observaram que todas as variedades apresentam ganho de produtividade na segunda e na terceira colheitas. No quarto ano de produção, contudo, o comportamento não é o mesmo: algumas variedades se estabilizam, enquanto outras têm ganho ou perda de produção. A expectativa, agora, é pelos resultados da próxima safra, que deve acontecer em maio de 2012.

Os mexicanos obtiveram bons resultados associando a fase de crescimento do pinhão-manso com o cultivo de feijão. Nos dois primeiros anos, as plantações solteiras não proporcionam ganhos financeiros para os produtores. O consórcio com o feijão, no entanto, gera rentabilidade de 102%.

No Peru, bons resultados foram obtidos com a associação da apicultura, que pode incrementar o faturamento não só por causa da produção de mel, mas também pela polinização, que beneficia o florescimento do pinhão-manso. Para o engenheiro agrônomo Ronal Echeverría Trujillo, da Estação Experimental Agrária “El Porvenir”, a apicultura é uma aliada da oleaginosa. O pesquisador peruano mostrou preocupação com os prejuízos provocados por ácaros observados em suas plantações, principalmente porque o controle da praga é muito caro e pode dificultar o manejo da cultura por pequenos produtores. Contudo, sua equipe teve êxito na minimização dos danos com a aplicação de biocidas como o óleo de neen. Na estação experimental, quatro veículos estão usando como combustível apenas o óleo de pinhão-manso refinado, há mais de um ano.

Adaptabilidade
Wagner Vendrame, pesquisador brasileiro que é professor associado da Universidade da Flórida, analisa, desde 2007, a viabilidade da produção de pinhão-manso no sul daquele estado norte-americano, onde o solo é formado basicamente por rochas calcárias. A maior dificuldade é a resistência da planta ao frio e à geada, embora, os resultados obtidos até o momento indiquem que a cultura é viável no sul da Flórida. Além dos trabalhos em campo, também estão sendo realizados experimentos em ambiente de microgravidade, em parceria com a Agência Espacial Americana (NASA).

Na opinião de Robert Schmidt, diretor científico da norte-americana SG Biofuels, a maior dificuldade tem sido a falta de paciência no processo de domesticação do pinhão-manso. Para o norte-americano, a idéia inicial de que era possível obter bons resultados sem melhoramento genético não era verdadeira. Ele argumentou que todas as culturas economicamente viáveis são versões melhoradas das espécies selvagens. Ainda de acordo com Schmidt, os primeiros experimentos da SG Biofuels com cultivares híbridas mostraram ganhos de produtividade em relação às plantas hoje utilizadas na Índia e no Cabo Verde, que foram usadas como parâmetro.

Em sua apresentação o pesquisador Rodrigo Barros Rocha, da Embrapa Rondônia, observou que, no primeiro congresso brasileiro sobre pinhão-manso, realizado em 2009, o foco estava nas potencialidades do pinhão-manso, como o alto teor de óleo e a resistência à seca. No evento deste ano, os pesquisadores estariam “levando muito mais a sério” as limitações do plantio. Os trabalhos realizados pela equipe de Rocha mostraram que Rondônia pode ter uma vantagem competitiva na produção de pinhão-manso: a colheita ocorre nos meses de novembro e dezembro, o que deixa os frutos menos suscetíveis a doenças.

Desafios
Para Bruno Laviola, pesquisador da Embrapa Agroenergia e um dos organizadores do evento, o congresso deste ano mostrou que os bancos de germoplasma foram consolidados em institutos de pesquisa brasileiros e estrangeiros. Ele destaca que a maior parte do material nesses bancos já está caracterizada, o que é importante para o melhoramento genético da cultura. Para os próximos anos de pesquisa, ele acredita serem “muito promissores os testes com reguladores de crescimento, que poderão aumentar o número de flores femininas nas plantas e, consequentemente, a produção de frutos”.

Laviola espera que, no próximo congresso, quando muitos pesquisadores já terão avaliado suas plantações por pelo menos cinco anos, sejam apresentados resultados mais conclusivos. Dessa forma, poderão gerar recomendações técnicas para o cultivo do pinhão-manso ou novos rumos para a pesquisa.

No encerramento do congresso, o chefe de transferência de tecnologia da Embrapa Agroenergia, José Manuel Cabral, disse que o evento superou as expectativas dos organizadores, especialmente pela qualidade das pesquisas apresentadas. “O interesse aumentou, os trabalhos se aprofundaram e as expectativas de crescimento estão claras”, disse. Para José Abreu, da Secretaria de Produção e Agroenergia do MAPA, o encontro foi importante para desmistificar alguns aspectos sobre a produção do pinhão-manso. Ele acredita no crescimento da cadeira produtiva, já que o potencial da oleaginosa desperta interesse.

O presidente da ABPPM, Luciano Piovesan, nota “um ganho de conhecimento enorme, do primeiro congresso até agora”. “Isso permitirá que nós iniciemos os trabalhos da associação, em 2012, com transferência de tecnologia”, comemora. Ele acredita que o desafio atual da pesquisa é desenvolver a primeira cultivar comercial adaptada às condições brasileiras, juntamente com um pacote tecnológico para o seu manejo adequado.

Piovesan ainda destacou o alto grau de interação entre as instituições brasileiras de pesquisa envolvidas nos estudos sobre pinhão-manso. Essa interação deverá se expandir formalmente para a América Latina e o Caribe, nesta quinta-feira (01), com a realização do Workshop Pan-Americano de Sustentabilidade nos Plantios de Pinhão-Manso.

Vivian Chies

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