Até 2008, o plantio de pinhão-manso sequer era permitido no Brasil. Hoje, o País tem 27 mil hectares de área plantada com a oleaginosa, que já dá origem a biodiesel e bioquerosene de aviação. Mas a cultura ainda é muito mais um potencial do que uma realidade na produção de biocombustíveis. Para que esse cenário mude, muitas pesquisas estão em andamento e os resultados obtidos foram apresentados nos dias 29 e 30 de novembro, em Brasília, no II Congresso Brasileiro de Pesquisa em Pinhão-Manso.

O evento foi promovido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pela Associação Brasileira de Produtores de Pinhão-Manso (ABPPM). Ele reuniu 300 pessoas e 165 trabalhos.

Para o presidente da ABPPM, Luciano Piovesan, um dos fatores que justificam o investimento no pinhão-manso é o seu alto teor de óleo, que supera a soja – grão que hoje é matéria-prima para cerca de 80% do biodiesel produzido no Brasil. Além disso, suas características físico-químicas são bastante favoráveis à produção de biocombustíveis, especialmente o bioquerosene de aviação.

O diretor-técnico da Gol Linhas Aéreas, Pedro Scorza, aposta no pinhão-manso como fonte para a produção de um combustível que permita à companhia reduzir suas emissões de carbono pela metade até 2050. A meta foi acordada pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês) com a Organização das Nações Unidas (ONU). “O bioquerosene vai ser um divisor de águas no volume de emissões do setor”, opina Scorza.

Outro ponto a favor do pinhão-manso é que ele não concorre diretamente com culturas alimentares. Piovesan explica que ele pode ser plantado em consórcio com outras culturas e em áreas rurais que apresentam dificuldade de mecanização da colheita, o que contribuiria para o melhor aproveitamento do solo. Pesquisas realizadas pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) mostram bons resultados no cultivo do pinhão-manso em consórcio com o amendoim e o algodão. “É ideal que o produtor faça o cultivo consorciado com outra cultura”, diz o pesquisador da Epamig José Carlos de Resende.

 

Melhoramento genético

Em sua apresentação no congresso, o chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Manoel Teixeira Souza Junior, ressalta que a primeira necessidade é investir no melhoramento genético do pinhão-manso. “Não podemos ser surpreendidos com cultivares de baixa qualidade e pouca resposta”, chama a atenção. A Embrapa já concluiu quatro projetos de pesquisa envolvendo a oleaginosa e tem outros 18 em andamento. Eles envolvem 32 das 47 unidades da instituição e 488 profissionais. “A mobilização é muito grande na Embrapa e nas instituições parceiras nacionais e internacionais”, afirma.

O pesquisador Bruno Laviola, da Embrapa Agroenergia, aponta três pontos principais nas pesquisas envolvendo pinhão-manso: o melhoramento genético, sistema de produção e o aproveitamento da torta, que é o resultado do esmagamento dos frutos para a obtenção do óleo. Durante o congresso, ele destacou como resultado dos trabalhos a criação de um Banco de Germoplasma na Embrapa. “Sem materiais genéticos não é possível desenvolver variedades e, sem variedades, não se obtêm sistemas de produção”, justifica.

As pesquisas também já identificaram variedades que produzem até 1.500 quilos de óleo por hectare. “O desafio é obter uma cultivar comercial que apresente essa produtividade”, explica. Avanços também estão sendo alcançados nos trabalhados para aproveitamento da torta. O principal problema é que ela contém ésteres de forbol que a tornam tóxica e impedem o seu uso para a alimentação animal. Os pesquisadores já conseguiram diminuir a toxicidade em 90% e esperam conseguir reduzi-la a zero em pouco tempo. Laviola chamou a atenção para a necessidade de reunir os resultados das pesquisas realizadas até o momento para chegar a um sistema produtivo preliminar.

Para o representante do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura, Jamil Macedo, os países latino-americanos devem se unir para pesquisar o pinhão-manso. “Uma rede pode facilitar o intercâmbio de material genético e fazer com que avancemos mais rapidamente”.

 

Biocombustíveis e desenvolvimento

O diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Arnaldo Vieira de Carvalho, diz que “biocombustível tem sido um tema que o Banco vem promovendo na América Latina porque acredita que pode ajudar a região a se desenvolver”. O secretário de Produção e Energia do MAPA, Manoel Bertone, também mostrou preocupação em fazer dos biocombustíveis um instrumento de desenvolvimento ambiental, econômico e social. “O nosso princípio básico é que devemos pulverizar a produção de agroenergia no País, diversificando as fontes”. Ele classificou como pioneiros os agentes envolvidos na cadeia produtiva do pinhão-manso e pediu que mantivessem o entusiasmo, o empenho e a confiança.

Na opinião do chefe-geral da Embrapa Agroenergia, a primeira fase do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel pode ser considerada um sucesso. “Nós saímos de uma produção zero, em 2005, para sermos hoje o maior consumidor mundial”. Ele mostrou que a expectativa é de aumento tanto na demanda interna quanto nas oportunidades de exportação, já que Estados Unidos e União Européia devem duplicar seu consumo até 2020. Mas faz uma ressalva: “temos que olhar para a questão da qualidade, se quisermos entrar no mercado externo”.

 

No exterior

O congresso também apresentou um panorama das pesquisas com o pinhão-manso em outros países. No México, uma das regiões da qual a cultura é originária, foi identificada uma grande variabilidade genética da espécie. O teor de óleo nas sementes, por exemplo, variou de 24 a 60%, o que faz desses materiais excelentes fontes para cruzamentos em busca de cultivares com alta produtividade e boas características para a produção de biodiesel.

O coordenador do Instituto Nacional de Pesquisas Florestais daquele país, Alfredo Zamarripa Colmenero, mostrou os resultados do acompanhamento de plantações durante quatro anos. Os pesquisadores observaram que todas as variedades apresentam ganho de produtividade na segunda e na terceira colheitas. No quarto ano de produção, contudo, o comportamento não é o mesmo: algumas variedades se estabilizam, enquanto outras têm ganho ou perda de produção. A expectativa, agora, é pelos resultados da próxima safra, que deve acontecer em maio de 2012.

Os mexicanos obtiveram bons resultados associando a fase de crescimento do pinhão-manso com o cultivo de feijão. Nos dois primeiros anos, as plantações solteiras não proporcionam ganhos financeiros para os produtores. O consórcio com o feijão, no entanto, gera rentabilidade de 102%.

No Peru, a boa experiência veio da associação com a apicultura, que pode incrementar o faturamento não só por causa da produção de mel, mas também pela polinização, que beneficia o florescimento do pinhão-manso. Para o engenheiro agrônomo Ronal Echeverría Trujillo, da Estação Experimental Agrária “El Porvenir”, a apicultura é uma aliada da oleaginosa. O pesquisador peruano mostrou preocupação com os prejuízos provocados por ácaros observados em suas plantações, principalmente porque o controle da praga é muito caro e pode dificultar o manejo da cultura por pequenos produtores. Contudo, sua equipe teve êxito na minimização dos danos com a aplicação de biocidas como o óleo de neen. Na estação experimental, quatro veículos estão usando como combustível apenas o óleo de pinhão-manso refinado, há mais de um ano.

 

Adaptabilidade

Wagner Vendrame, pesquisador brasileiro que é professor associado da Universidade da Flórida, analisa, desde 2007, a viabilidade da produção de pinhão-manso no sul daquele estado norte-americano, onde o solo é formado basicamente por rochas calcárias. A maior dificuldade é a resistência da planta ao frio e à geada, embora os resultados obtidos até o momento indiquem que a cultura é viável no sul da Flórida. Além dos trabalhos em campo, também estão sendo realizados experimentos em ambiente de microgravidade, em parceria com a Agência Espacial Americana (NASA).

Na opinião de Robert Schmidt, diretor científico da norte-americana SG Biofuels, a maior dificuldade tem sido a falta de paciência no processo de domesticação do pinhão-manso. Para o norte-americano, a ideia inicial de que era possível obter bons resultados sem melhoramento genético não é verdadeira. Ele argumentou que todas as culturas economicamente viáveis são versões melhoradas das espécies selvagens. Ainda de acordo com Schmidt, os primeiros experimentos da SG Biofuels com cultivares híbridas mostraram ganhos de produtividade em relação às plantas hoje utilizadas na Índia e no Cabo Verde, que foram usadas como parâmetro.

Em sua apresentação o pesquisador Rodrigo Barros Rocha, da Embrapa Rondônia, observou que, no primeiro congresso brasileiro sobre pinhão-manso, realizado em 2009, o foco estava nas potencialidades da cultura, como o alto teor de óleo e a resistência à seca. No evento deste ano, os pesquisadores estariam “levando muito mais a sério” as limitações do plantio. Os trabalhos realizados pela equipe de Rocha mostraram que Rondônia pode ter uma vantagem competitiva na produção de pinhão-manso: a colheita ocorre nos meses de novembro e dezembro, o que deixa os frutos menos suscetíveis a doenças.

 

Desafios

Para Bruno Laviola, pesquisador da Embrapa Agroenergia e um dos organizadores do evento, o congresso deste ano mostrou que os bancos de germoplasma foram consolidados em institutos de pesquisa brasileiros e estrangeiros. Ele destaca que a maior parte do material nesses bancos já está caracterizada, o que é importante para o melhoramento genético da cultura. Para os próximos anos de pesquisa, ele acredita serem “muito promissores os testes com reguladores de crescimento, que poderão aumentar o número de flores femininas nas plantas e, consequentemente, a produção de frutos”.

Laviola espera que, no próximo congresso, quando muitos pesquisadores já terão avaliado suas plantações por pelo menos cinco anos, sejam apresentados resultados mais conclusivos. Dessa forma, poderão gerar recomendações técnicas para o cultivo do pinhão-manso ou novos rumos para a pesquisa.

No encerramento do congresso, o chefe de transferência de tecnologia da Embrapa Agroenergia, José Manuel Cabral, disse que o evento superou as expectativas dos organizadores, especialmente pela qualidade das pesquisas apresentadas. “O interesse aumentou, os trabalhos se aprofundaram e as expectativas de crescimento estão claras”, disse. Para José Abreu, da Secretaria de Produção e Agroenergia do MAPA, o encontro foi importante para desmistificar alguns aspectos sobre a produção do pinhão-manso. Ele acredita no crescimento da cadeira produtiva, já que o potencial da oleaginosa desperta interesse.

O presidente da ABPPM, Luciano Piovesan, nota “um ganho de conhecimento enorme, do primeiro congresso até agora”. “Isso permitirá que nós iniciemos os trabalhos da associação, em 2012, com transferência de tecnologia”, comemora. Ele acredita que o desafio atual da pesquisa é desenvolver a primeira cultivar comercial adaptada às condições brasileiras, juntamente com um pacote tecnológico para o seu manejo adequado.

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