Balanço da conferência em Belém destaca avanços em agricultura e financiamento climático, mas mantém travas sobre redução de fósseis; previsibilidade regulatória e rastreabilidade aparecem como chaves para acelerar a agenda.

A COP30, realizada em Belém, ampliou a vitrine internacional do Brasil na agenda climática, mas também evidenciou os limites do consenso quando o tema é a redução do uso de combustíveis fósseis. Em entrevista ao programa Energia Agro (AgroMais), Paulo Costa, um dos formuladores do RenovaBio e hoje na House of Carbon, avaliou que o encontro reuniu 192 países sob interesses geopolíticos distintos e cobrou decisões mais claras para que a transição energética saia do discurso e avance em ritmo compatível com a urgência climática.

Para Costa, a conferência se organiza em dois grandes blocos: o público, onde se negociam compromissos nacionais e regras multilaterais, e o privado, onde empresas e organizações traduzem risco climático em ação, investimentos e modelos de negócio. “A COP é uma discussão muito vasta, com 192 países e interesses próprios, mas com o propósito de promover adaptação climática e mitigação climática” , afirmou. Ele citou um cenário de “difícil multilateralismo” , com participação menos incisiva de atores tradicionais e disputas que seguem blindando, em diferentes frentes, o avanço de compromissos mais objetivos sobre fósseis.

Entre os diferenciais apontados da COP30, a Agrizone ganhou destaque como inovação impulsionada pelo governo brasileiro com protagonismo da Embrapa, abrindo espaço para a agricultura tropical no coração do debate climático. A proposta foi apresentar tecnologia e práticas associadas à agricultura regenerativa, como plantio direto, manejo que reduz o revolvimento do solo e instrumentos de monitoramento climático, além do componente social da produção. Na leitura do entrevistado, a Agrizone tende a influenciar as próximas conferências, dado o interesse de outros países em replicar o modelo.

Na entrevista, o especialista também defendeu que o Brasil tem condições de ampliar fortemente sua oferta de combustíveis de menor emissão, incluindo etanol e biodiesel, além de novas rotas como o combustível sustentável de aviação (SAF) e o biocombustível marítimo. O desafio, afirmou, será combinar previsibilidade regulatória com exigências crescentes de rastreabilidade e critérios ambientais, sobretudo para biocombustíveis avançados. Ao mesmo tempo, criticou a narrativa simplista de “zero emissões” para veículos elétricos sem considerar o ciclo de vida e reforçou que políticas públicas como o RenovaBio, ao medir emissões pela lógica do ciclo de vida e gerar certificação negociada em mercado, formam uma inteligência “exportável” que pode orientar outros países na construção de metas críveis e mecanismos efetivos de transição.