Experiência brasileira com etanol, biodiesel e bioeconomia mostra que é possível produzir energia limpa em larga escala, gerar empregos e reduzir emissões sem comprometer a segurança alimentar.

O Brasil mostrou ao mundo que os biocombustíveis são capazes de rivalizar com os combustíveis fósseis em escala, eficiência e impacto socioeconômico. Essa avaliação foi defendida pelo professor Gonçalo Pereira, da Unicamp, durante entrevista ao programa Energia Agro, ao destacar que o país construiu, desde a década de 1970, uma liderança inédita no setor. O marco inicial foi o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), criado em resposta à crise do petróleo, que transformou uma aposta considerada improvável em um modelo de sucesso reconhecido internacionalmente.

Segundo o pesquisador, o Proálcool demonstrou algo revolucionário: é possível produzir, na superfície do planeta e em tempo curto, volumes de energia comparáveis àqueles acumulados pela natureza ao longo de milhões de anos sob a forma de petróleo e carvão. Hoje, o Brasil produz cerca de 30 bilhões de litros de etanol por ano, utilizando aproximadamente 0,5% do território nacional, o que garante segurança energética sem pressionar áreas de produção de alimentos.

Além da escala produtiva, os biocombustíveis se destacam pelo valor que agregam à sociedade. De acordo com Pereira, a cadeia do etanol e do biodiesel gera de 40 a 50 vezes mais empregos por unidade de energia produzida do que os combustíveis fósseis, impulsionando o desenvolvimento regional, a renda e a inclusão social. A redução de emissões também é expressiva: enquanto combustíveis fósseis emitem, em média, mais de 80 gramas de CO₂, biocombustíveis como etanol e biodiesel emitem cerca de 20 gramas.

O especialista defende que o grande desafio agora não é competir em preço, mas fazer com que a sociedade compreenda o valor real dos biocombustíveis. Isso inclui reconhecer benefícios como geração de empregos, melhoria da saúde pública e mitigação das mudanças climáticas. Nesse contexto, programas como o RenovaBio e os créditos de carbono ganham protagonismo ao criar mecanismos para transformar esses ganhos ambientais e sociais em valor econômico mensurável.

Para o futuro, Gonçalo Pereira avalia que o Brasil já avançou mais do que qualquer outro país na transição energética, mas ainda precisa liderar a chamada “desfossilização” da matriz de transportes. Com novas culturas adaptadas a diferentes regiões, como a macaúba e o agave no semiárido, o país amplia seu potencial de bioenergia e reforça sua posição estratégica. “O Brasil já provou que o biocombustível pode rivalizar com o fóssil em volume. Agora, o próximo passo é mostrar que pode rivalizar — e vencer — em valor” , conclui.