Com práticas agrícolas sustentáveis já consolidadas, país pode ampliar valorização dos biocombustíveis com mais integração de dados e tecnologia na cadeia produtiva.

Em entrevista ao programa Energia Agro, Guilherme Dominici, sócio da empresa Merx, fala sobre os desafios e oportunidades da rastreabilidade na cadeia dos biocombustíveis. Segundo Dominici, embora cerca de 70% do biodiesel produzido no Brasil utilize óleo de soja, apenas 20% dessa produção é elegível para a emissão de Créditos de Descarbonização (CBIOS). O número, segundo ele, podem crescer rapidamente com o uso de ferramentas tecnológicas e gestão de dados.

“A soja brasileira, em sua maioria, já é produzida de forma sustentável. O que falta é a informação caminhar de forma transparente da fazenda até a indústria de biocombustível”, explicou Dominici. A Merx atua exatamente nesse ponto, desenvolvendo plataformas de gestão que viabilizam o rastreamento da matéria-prima e a comprovação da pegada de carbono. “O RenovaBio criou a estrutura, mas os dados ainda não circulam como deveriam”, pontuou.

Com base na regulamentação da Agência Nacional de Petróleo (ANP), de 2022, que estabeleceu a chamada “cadeia de custódia”, Dominici afirma que é possível aumentar significativamente a elegibilidade. Ele cita casos de indústrias que saíram de 0% para 90% de fração elegível, após implementarem processos tecnológicos e mapeamento digital das propriedades via CAR (Cadastro Ambiental Rural). “O Brasil tem uma das agriculturas mais sustentáveis do mundo, o que falta é mensurar isso com clareza”, destacou.

A descomoditização da soja — antes tratada, apenas como produto de massa — também foi tema da conversa. Para o especialista, mercados consumidores estão exigindo cada vez mais comprovações socioambientais. “Hoje, a mesma soja pode ou não gerar CBIOS, dependendo da sua origem e rastreabilidade. Isso cria nichos e valoriza práticas sustentáveis”, explicou. Regras internacionais, como as novas diretrizes da União Europeia, reforçam essa tendência de segmentação e exigência de dados ambientais e logísticos.

Por fim, Dominici destacou que ainda há tempo para que as indústrias de biocombustíveis se adequem e aumentem sua elegibilidade em 2025. “Esse processo leva cerca de quatro meses. Cada dia sem ação representa CBIOS deixados de emitir”, alertou. Para ele, o futuro da valorização da cadeia passa por três pilares: transparência dos dados; colaboração entre os elos da cadeia e regulação inteligente que acompanhe a evolução do mercado.