Por Donizete Tokarski, diretor superintendente da Ubrabio

Na última semana, bancos do mundo inteiro com mais de 47 trilhões de dólares em ativos se comprometeram a seguir as metas de desenvolvimento sustentável e combate à mudança climática das Nações Unidas (ONU) e do Acordo de Paris.

Deutsche Bank, Citigroup e Barclays estão entre os 130 bancos que aderiram ao novo compromisso de trabalho. Itaú Unibanco e Bradesco representam o Brasil no esforço que a ONU afirma ser o mecanismo mais importante já criado em conjunto por ela e o setor financeiro mundial. A Iniciativa de Finanças do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep FI) aponta novos princípios responsáveis de operação para combater mudanças climáticas, e deve encorajar os bancos a direcionar seus portfólios de investimentos para longe de ativos intensivos em carbono, como os combustíveis fósseis, e redirecionar seu capital para indústrias mais verdes.

Iniciativas como esta reforçam que o mercado está cada vez mais alerta para os efeitos catastróficos das mudanças climáticas na economia.

No ano passado, a Goldman Sachs, sediada nos EUA, lançou o fundo de ações JUST, para investir em empresas americanas que apresentam baixas emissões de gases de efeito estufa. Segundo a agência de notícias alemã Deutsche Welle, no dia do lançamento, o fundo movimentou mais de US$ 250 milhões em ativos – tornando-se o mais bem sucedido lançamento desse tipo na história.

Na mesma linha, o Japão anunciou em 2017 que triplicaria o peso dos fatores ambientais, sociais e de governança em seu fundo de investimento para pensões governamentais. O maior fundo do gênero do mundo, com cerca de US$ 1,3 trilhão.

O Brasil não fica atrás. Segundo a Febraban (dados de 2018), a participação dos financiamentos para companhias de economia verde subiu, em um ano, de 18,8% para 27,6% da carteira de crédito de 15 bancos que, somados, representam 86,8% de R$ 1,7 trilhão da carteira de financiamentos para pessoas jurídicas.

Onde entram os biocombustíveis

O Brasil tem tudo para se tornar a “Arábia Saudita dos biocombustíveis”. A afirmação é frequente entre analistas do setor. O que falta então para deixar de lado a dependência por combustíveis fósseis e consolidar de vez a liderança em combustíveis renováveis?

O cenário externo nunca foi tão favorável. Com a assinatura do Acordo do Clima de Paris em 2015, 192 países se comprometeram a adotar medidas para transição rumo a uma economia mais limpa. Temos grandes empresas tomando medidas efetivas para tentar reduzir seu impacto ambiental. O mercado financeiro está de olho nos riscos de investimentos insustentáveis ambientalmente, porque a questão ambiental tem reflexos diretos nos ganhos econômicos.

O cenário interno também é favorável. O uso de biodiesel e etanol estão consolidados no país. A indústria vem demonstrando cada vez mais a capacidade de atender à demanda crescente por energia limpa. O Brasil conta com grande oferta de matéria-prima, mão de obra, solo fértil e condições climáticas favoráveis que nos colocam em avançada vantagem em relação ao resto do mundo. Com a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) temos a perspectiva de um novo paradigma de produção e consumo de combustíveis que pode ser aplicado inclusive em outros setores da economia. Este modelo valoriza a eficiência, considerando todos os aspectos da cadeia de produção, desde sustentabilidade da matéria-prima, passando pelos processos de produção, até a entrega do produto final ao consumidor. Ou seja, estamos com a faca e o queijo na mão. O que falta? Aproveitar a oportunidade e destravar esta agenda positiva porque o mundo conspira a favor do Brasil, que tem o maior potencial na produção de biocombustíveis: biodiesel, etanol, biogás e, o próximo e indiscutívelmente o que vem para ficar por muitos anos, o bioquerosene.

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