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Reduzir as emissões de CO₂, um dos gases causadores do efeito estufa, está entre as principais metas da aviação civil no mundo para os próximos anos, a fim de aumentar a sustentabilidade ambiental da atividade. Por isso, em setembro, na próxima assembleia da ICAO (International Civil Aviation Organization, chamada, no Brasil, de OACI – Organização da Aviação Civil Internacional), representantes do setor de diversos países deverão ratificar uma proposta que vai estabelecer o novo padrão de certificação de aeronaves, voltado para a diminuição da quantidade de dióxido de carbono jogada na atmosfera.

O modelo esteve em discussão por seis anos e foi aprovado, em fevereiro de 2016, pelo Comitê de Proteção Ambiental da entidade. O objetivo é que as fabricantes invistam no desenvolvimento de projetos cuja configuração dê às aeronaves mais eficiência energética. Depois que o padrão for estabelecido, os países terão dois anos para atualizar a legislação interna sobre a certificação dos aviões. As novas exigências deverão valer a partir de 2020.

“É uma novidade no quadro regulatório da aviação mundial, porque, até então, havia apenas um padrão para a redução das emissões do motor. Esse é mais abrangente, porque engloba características de desenho do avião”, explica o gerente técnico de Acordos Internacionais da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Alexandre Filizola. Ele complementa que, “dessa maneira, a regulação está forçando que os engenheiros elaborem os projetos tendo em mente a redução de CO₂. Com isso, vamos ter aeronaves menos poluentes”.

Outras ações

Em outra frente, a Organização da Aviação Civil Internacional estabeleceu, como meta, que as empresas aéreas reduzam as emissões de poluentes a uma média de 2% ao ano até 2020. A partir de então, o setor deve ter crescimento neutro de carbono. Assim, não importa o quanto a aviação civil expanda: as emissões de dióxido de carbono terão que permanecer constantes. “No Brasil, publicamos o Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas da Aviação Civil e temos o Plano de Ação para Redução das Emissões de Gases do Efeito Estufa. O que temos acompanhado é que a aviação brasileira tem alcançado essas melhorias”, explica Filizola.

A pouca idade média da frota nacional (nove anos) é um dos fatores que favorece a obtenção de melhores resultados ambientais. Por terem tecnologia mais moderna, os aviões consomem menos combustível, o que faz cair as emissões de gases.

A melhoria do tráfego aéreo é outra estratégia para melhoria da qualidade do ar. Assim, evitar que os aviões permaneçam no ar por muito tempo – o que ocorre, por exemplo, quando é necessário esperar para procedimentos de pouso – fazer rotas mais retas e mudar a forma de aproximação do aeroporto também impactam no ganho de eficiência energética das operações.

Outra opção, em debate no âmbito da OACI, é a criação de um sistema de neutralização por meio de um mercado de créditos de carbono, que valeria para a aviação internacional. A alternativa visa acelerar a obtenção de resultados concretos pelo segmento e poderia ser adotada a partir de 2020, para compensar emissões de CO₂ que fiquem acima da meta.

Biocombustível

Encontrar formas de se utilizar, em maior escala, combustíveis alternativos, como os de origem vegetal, é outro alvo da indústria da aviação. No entanto, esse desenvolvimento anda em ritmo mais lento. De acordo com o gerente técnico da Anac, Alexandre Filizola, isso ocorre porque ainda não está esatebelecida uma indústria de biocombustíveis para a aviação. Além disso, o custo de produção chega a ser quatro vezes maior que do querosene de aviação tradicional. “Esse é o grande desafio que a indústria, como um todo, tem pela frente: desenvolver a agenda de biocombustível”. A estimativa é que o bioquerosene reduz em até 80% as emissões de um voo.

A Gol é um dos exemplos de empresas que apostam na utilização de combustíveis de fontes renováveis como alternativa para deixar a atividade ambientalmente mais sustentável. Desde 2012, a aérea tem um programa que busca fomentar a construção de uma cadeia de valor do bioquerosene dentro do Brasil. Conforme a empresa, o plano é de longo prazo. “Por conta da complexidade da cadeia, a meta (não obrigatória) da indústria mundial de transporte aéreo é de que até 2050 metade dos voos realizados sejam abastecidos com combustível de fonte renovável”, destaca o Relatório de Sustentabilidade da companhia de 2014.

A Gol realizou o primeiro voo comercial com biocombustível (uma mistura de 25% de óleo de milho e de gorduras residuais com o querosene de aviação) no Brasil em 2013. Já no ano seguinte foram utilizadas mais de 70 toneladas combustíveis de fontes renováveis no abastecimento de aeronaves.

Estratégias

Conforme Filizola, outras medidas – algumas simples, outras nem tanto – têm ajudado no ganho de eficiência energética na aviação. “Retirar as revistas de bordo é um jeito de emitir menos gases causadores do efeito estufa. Somando todas, você remove quase cem quilos da aeronave. E quanto menos peso, menos combustível é consumido”, conta. Nesse mesmo sentido, outra prática econômica é diminuir a quantidade de água nos reservatórios das aeronaves, adequando o total disponível à rota e ao número de passageiros, já que isso também reduz a carga do avião.

Outro exemplo, ainda, é lavagem dos motores. “É um processo complexo e caro, que retira resíduos que ficam da queima de combustível. Isso reduz o atrito e a perda pelo acumulo de partículas. Apesar do custo, essa prática pode reduzir em até 1% o consumo de querosene da aviação”, explica o gerente técnico da Anac.

Pequenas mudanças no desenho da aeronave, por sua vez, também são capazes de trazer impactos positivos. Os winglets, componentes aerodinâmicos que deixam a ponta das asas inclinadas para cima, permitem uma economia de 2% a 2,5% do combustível.