A cooperação técnica Brasil-África trouxe para Brasília (DF), em 2013, o professor nigeriano Nwauzoma Akagbuo Barth, da Rivers State University of Science and Technology. O cientista, que se despede do País no próximo dia 21, atuou como pesquisador-visitante da Embrapa Agroenergia, investigando formas de controle biológico da antracnose em pinhão-manso.

Foi o primeiro trabalho desenvolvido na Embrapa Agroenergia com a participação de um pesquisador-visitante estrangeiro. O chefe-geral da Unidade, Manoel Souza, diz que há muitos cientistas competentes na África, China, Índia e América Latina que poderiam fazer trabalhos semelhantes no Brasil. “O alto nível de conhecimento de Barth permitiu uma parceria não só de transferência de tecnologia, mas também de desenvolvimento científico”, ressalta. “A vinda de pesquisadores como ele contribui para que a Embrapa entenda melhor os desafios de pesquisa da África. Ao mesmo tempo, dá a esses cientistas condições de realizar trabalhos de alto nível com estrutura que muitas vezes não têm em seus países de origem”, complementa Souza.

A pesquisa de Barth consistiu em isolar fungos da superfície das folhas que pudessem combater a antracnose no pinhão-manso, doença causada por microrganismos provoca lesões de coloração castanha principalmente nas folhas. O trabalho começou com o isolamento de várias linhagens de fungos das folhas de árvores de pinhão-manso do Banco Ativo de Germoplasma mantido pela Embrapa Agroenergia em parceria com a Embrapa Cerrados em Planaltina (DF). Com testes in vitro, ele buscou o potencial de cada um deles inibir o aparecimento da antracnose. As duas linhagens mais promissoras foram, então, testadas em mudas de pinhão-manso.

Os resultados mostraram que os fungos podem atuar no controle biológico da antracnose. Mais do que isso, a pesquisa sugere que pelo menos um deles tem efeito também sobre o desenvolvimento da planta, gerando árvores mais vigorosas, além de inibir o ataque de pragas e favorecer a resistência a outra doença – o oídio. Barth comemora os resultados positivos, mas diz que será preciso aprofundar os estudos e identificar os metabólitos responsáveis pelos efeitos desses fungos sobre as plantas.

Para tanto, a ideia é que Barth continue a investigação na Rivers State University, em parceria com a Embrapa Agroenergia. Novos projetos de pesquisa estão sendo apresentados ao The Agricultural Innovation MKTPlace e outras agências de fomento. O cientista mostrou-se entusiasmado para adaptar a metodologia desenvolvida aqui e a aplicá-la em estudos na Nigéria, além de transmitir o conhecimento adquirido para os alunos.

Barth contou que o cultivo do pinhão-manso na Nigéria está relacionado a questões ambientais. No norte do país, já está sendo utilizado nas fronteiras do deserto pra impedir o avanço dele sobre outras áreas. Na região Sul, há a intenção de utilizar a planta para auxiliar na recuperação do solo. Nessa área está concentrada a exploração de petróleo – principal produto de exportação nigeriano –, o que resultou em contaminação do solo. De acordo com o pesquisador, relatos na Índia e na Malásia indicam que o plantio de pinhão-manso pode ajudar a recuperar solos contaminados. Outras espécies vegetais também cumprem esse papel, mas o pinhão-manso tem melhor potencial de exploração econômica.

Rica em óleo e com capacidade de adaptação a áreas com menor disponibilidade de água, a planta tem sido apontada como potencial matéria-prima para biocombustíveis, especialmente biodiesel e bioquerosene. É, no entanto, uma espécie não domesticada, ou seja, cultivares e sistemas de produção ainda estão em desenvolvimento.

A Embrapa Agroenergia lidera uma rede de pesquisa com outras unidades da Empresa e universidades que investiga desde a genética até o processamento do óleo e dos coprodutos dos frutos. Um dos grandes desafios é aproveitar a torta que sobra da extração do óleo. Uma vez que ela contém substâncias tóxicas, só depois de passar por processos de destoxificação pode ser usada para alimentação animal – principal destino de oleaginosas.

A permanência de Barth no Brasil foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela The World Academy of Sciences (TWAS), uma instituição de fomento à pesquisa sediada na Itália e administrada pela Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.


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