Da agropecuária à produção de energia, uma série de produtos de origem biológica vira ativos econômicos, impulsionando um segmento que ficou consagrado como bioeconomia. A potencialidade do Brasil para atuar nessa área é significativa. Prova disso são os volumes cada vez maiores da safra brasileira. “A produção de alimentos é o básico da bioeconomia”, sintetiza o chefe do Centro de Estudos e Capacitação da Embrapa, Elísio Contini.

Hoje, a possibilidade de converter biológicos em produtos é imensa. “Evoluiu muito, e nós estamos em um processo crescente de uso dos produtos da agricultura e da pecuária para produzir outros bens”, revela Contini. Um exemplo disso é a produção de energia a partir de vegetais, como a cana-de-açúcar para o álcool ou a soja e o dendê para o biodiesel. Com tanta versatilidade, os elementos biológicos foram inseridos em novos contextos, ganhando cada vez mais expressividade.

“O que está começando a entrar no mercado são produtos para química fina, a química verde, como produzir plástico a partir de cana, produzir energia do bagaço da cana e produtos mais nobres que venham da área vegetal para produzir medicamentos e produtos de alta densidade econômica”, destaca Contini, reforçando as oportunidades da bioeconomia também para o desenvolvimento científico e da indústria de ponta. Em entrevista ao Jornal do Comércio, Contini revela as razões que levam o Brasil à projeção no segmento e quais são os desafios e oportunidades da bioeconomia para o País.

Jornal do Comércio – Quais são as características que colocam o Brasil em posição de destaque no fornecimento de bioeconomia?

Elísio Contini – Nós sempre falávamos que o Brasil era o país do futuro, e esse futuro sempre demorava a chegar. No agronegócio, o futuro está aí. De uma forma geral, o mercado está abastecido, e os preços estão razoáveis para o mercado brasileiro. O agronegócio e a bioeconomia no Brasil estão bombando. Nossa exportação no agronegócio saltou de US$ 20 bilhões, em 2000, para US$ 100 bilhões em 2013. Nós ainda importamos trigo, mas os demais produtos exportamos em quantidades crescentes, inclusive produtos florestais e carnes. O que leva o Brasil a ser forte nessa área? Alguns fatores foram importantes. Primeiro, temos recursos naturais: terra, agricultura tropical, temos água razoavelmente abundante, principalmente chuvas regulares no Centro-Oeste, por exemplo. Além disso, temos uma política agrícola que, se não foi perfeita, ajudou a impulsionar o setor com crédito, principalmente para máquinas, e outros programas. Temos uma infraestrutura razoável, embora ainda sejam necessárias melhorias consideráveis. Desenvolvemos tecnologia tropical, o que não havia no mundo para copiarmos, então, tivemos que desenvolver. E há ainda um último fator, que é empreendedorismo dos nossos agricultores. Um exemplo são os gaúchos que vêm para o Centro-Oeste, que foram para o Paraná, Goiás, Tocantins, Bahia, Maranhão e Piauí, mesmo com pequenas terras, transformaram-se em ótimos agricultores.

O que levou a essa competitividade no cenário mundial foi a soma disto tudo: recursos abundantes, política agrícola de apoio, tecnologia e agricultores competentes, que sabem fazer agricultura. O que vemos é que o Brasil será um fornecedor de bioeconomia para o mundo de forma cada vez mais competitiva.

JC – De que forma a Embrapa se articula com outros ministérios ou países para estimular a bioeconomia?

Contini – Naturalmente, nós somos do Ministério da Agricultura, portanto temos uma missão de pesquisa aplicada de resolver os problemas da agricultura, pecuária, floresta e pesca, enfim, de resolver problemas completos da agricultura. Nós nos relacionamos muito bem com os ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Educação, que têm recursos financeiros também, mas também têm organizações que trabalham com pesquisa básica. Temos parceria razoavelmente forte com centros de excelência de pesquisa agrícola, para os quais enviamos pesquisadores seniores para, primeiro, fazer pesquisa junto com esses centros em projetos de interesse comum, e, com isso, acompanhamos, também, o que sendo desenvolvido no mundo. Na agricultura do presente, praticamente dois terços do aumento da produtividade dependem da ciência e tecnologia, então não podemos deixar de acompanhar e incorporar o que está sendo desenvolvido no mundo inteiro. Caso contrário, vamos perder a nossa competitividade.

Temos pesquisadores seniores nos Estados Unidos, na Europa (França, Inglaterra e Alemanha), na Coreia, na China, e em 2014 provavelmente teremos no Japão. Estaremos presentes em todos os grandes centros de geração de conhecimento do mundo. Isso é captação de tecnologia para que a agricultura brasileira seja competitiva hoje e no futuro. Nós temos uma linha humanitária para desenvolvimento de países muito pobres. Do ponto de vista internacional, o Brasil tem a responsabilidade de ajudar os outros, como fomos ajudados a desenvolver a nossa agricultura. Temos projeto de desenvolvimento na África e na América Latina.

JC – As tecnologias desenvolvidas chegam aos produtores, de forma geral?

Contini – Este é um gargalo: a difusão e adoção de tecnologia. Tecnologia não é tão simples quanto parece, precisa ter educação básica (esse é um problema dos pequenos agricultores), e falta capital para alguns, embora o Ministério de Desenvolvimento Agrário esteja ajudando nesse item. Mas precisamos de ações mais amplas para que a tecnologia chegue aos produtores e gere resultados. Temos 4 milhões de propriedades que produzem muito pouco ainda. Se elas passarem a produzir mais, precisaremos aumentar as exportações, porque o mercado interno está relativamente abastecido. Um dos pontos ainda a serem melhorados são os acordos internacionais que permitam exportação do Brasil com maior facilidade.

JC – Ampliar as exportações e resolver problemas de infraestrutura são dois grandes desafios para a bioeconomia. Por outro lado, quais são as atuais oportunidades?

Contini – O mercado interno está se tornando mais sofisticado, como a parte de queijos, por exemplo, champignon e cogumelos, que são produtos que o mercado interno ainda não tem tão forte, mas em que o pequeno produtor pode investir. Nós defendemos que o pequeno produtor diversifique. Essas são áreas fundamentais da nova bioeconomia, mas há coisas novas nesse segmento, como colocar muito conhecimento na produção. Por exemplo, a química verde. Tudo que se produz à base de petróleo pode ser feito com produtos vegetais. Outro setor para o mercado interno em que estamos devendo são vinhos brasileiros mais competitivos. É um mercado enorme, que está crescendo e do qual os estrangeiros estão tomando conta. Precisamos desenvolver vinhos em novas regiões. Os franceses têm 2 mil anos de história de pesquisa na bebida. Em Petrolina, na Bahia, temos dez anos, quando chegarmos aos 20, 30, 40, com certeza teremos vinhos muito bons.

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