Às 12h40 do dia 23 de novembro de 2013, horário de Brasília, a história da aviação ganhava um novo capítulo. A data, que marca o Dia do Aviador, celebrou também o 1° voo comercial do Brasil com biocombustível. A iniciativa pioneira foi uma realização da Plataforma Brasileira de Bioquerosene (PBB), formada pelas empresas GOL, Boeing, General Electric, Amyris, e pelas entidades: Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) e a União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio).

Abastecida com bioquerosene – misturado pela Petrobrás e produzido com óleo de cozinha reciclado e óleo de milho não comestível – adicionado ao querosene fóssil, a aeronave 737-800 da GOL, equipada com motores CFM-56 da GE e Snecma, decolou o voo G3 1408, que saiu do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino a capital federal.

Os clientes da GOL que estiveram a bordo foram surpreendidos com emoção pela notícia do voo sustentável apenas momentos antes da decolagem. Também estiveram no voo representantes dos setores público, privado e de pesquisa, formando a comitiva que representou todo o grupo responsável pela realização do 1° voo comercial do Brasil com biocombustível.

Antes do voo, uma coletiva de imprensa recebeu jornalistas de diversos veículos. Participaram da coletiva o ministro Moreira Franco, da Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República (SAC); Eduardo Sanovicz, presidente da Abear; Juan Diego Ferrés, presidente do Conselho Superior da Ubrabio; Paulo Sergio Kakinoff, presidente da Gol; Donna Hrinak, presidente da Boeing; Gilberto Peralta, presidente da GE; Joel Velasco, vice-presidente da Amyris, Arnaldo Vieira de Carvalho especialista em energia e líder da Iniciativa de Biocombustíveis Sustentáveis para Aviação do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o governador em exercício do Distrito Federal, Tadeu Filippelli, e o presidente da subcomissão de biocombustíveis da Câmara dos Deputados, deputado Márcio Macêdo (PT/SE).

Na coletiva, as autoridades e representantes do setor explicaram o que o aquele voo significava para o setor da aviação e para toda a sociedade.


O que diz o setor
Donna Hrinak (Boeing) explicou que a empresa possui projetos de pesquisa em várias partes do mundo, mas que no caso do Brasil o potencial é diferente. “Quase dois anos depois do início das pesquisas aqui, chegamos à conclusão de que o Brasil não tem só potencial, mas vantagens competitivas se comparado a outros locais. Não é só a geografia – variedade de solos e climas, mas, sobretudo, o Brasil tem experiência. Experiência de desenvolver a indústria de bioenergia. E este conjunto de elementos positivos só existe aqui”, declarou a presidente da Boeing. “Com este voo, o Brasil afirma ao mundo que quer assumir uma posição de liderança no desenvolvimento de uma nova indústria, que é a indústria de biocombustível de aviação”, concluiu.

Eduardo Sanovicz (Abear) destacou que, no custo das passagens aéreas, 43% chega a ser responsabilidade do combustível e as conseqüências das tributações elevadas para a economia brasileira e para o setor. “A aviação hoje é um transporte de massa e o governo do Distrito Federal entendeu isso quando reduziu a tributação do querosene de aviação de 25% para 12%. Em 120 dias, viveu a experiência de ganhar 56 novos vôos e de ver o consumo do QAV comprado no DF subir em 25%”, afirmou Sanovicz ao enfatizar a importância da redução de impostos sobre o combustível de aviação para o desenvolvimento do setor.

“Nosso papel nessa iniciativa é apoiá-la como um instrumento de desenvolvimento. Vemos que este momento é um mecanismo eficaz para acelerar o desenvolvimento econômico e social da América Latina”, afirmou Arnaldo Vieira de Carvalho (BID). Para ele, a iniciativa de biocombustíveis sustentáveis é “uma resposta excepcional para a redução da emissão de carbono exigida pelo mundo e essa ação permite que o transporte aéreo siga crescendo a nível mundial”, concluiu.

Juan Diego Ferrés (Ubrabio) destacou a visão da entidade e a importância da união entre diferentes setores para o avanço dos biocombustíveis no Brasil. “Nós da Ubrabio, vemos com extremo otimismo o desafio de introduzir no Brasil a liderança global na grande empreitada de produção industrial do terceiro biocombustível brasileiro – o bioquerosene, depois do etanol e do biodiesel”. Para Ferrés é importante criar a união entre o governo, a sociedade e o setor privado. Ele afirma que esse é o papel da Ubrabio. “A entidade fez isso nos últimos sete anos com o Programa de Biodiesel, que é motivo de orgulho para o Brasil, pois liga com criatividade os objetivos econômicos e sociais do país com a sustentabilidade”.

“Essa tecnologia, esta realidade, só vai ter o impacto necessário se a indústria se unir. Hoje vejo aqui a completa união da indústria e do governo para agilizar isso. Sem políticas públicas claras e fixas, não faremos esse plano decolar. O Brasil tem experiência na área de biocombustíveis e vamos fazer isso não apenas para reduzir custos e ter desenvolvimento econômico, mas também para ajudar o planeta a reduzir a emissão de poluentes. Esse é o desejo da Amyris”, declarou Joel Velasco, vice-presidente da empresa associada à Ubrabio.

“Para nós é um dia histórico e a GOL sente-se privilegiada em protagonizar este momento. Visivelmente não parece apenas a adição de um combustível em nossos aviões que é idêntico ao querosene de aviação a olho nu. Na prática, a mágica por trás do trabalho que tem sido desenvolvido nos últimos anos é justamente essa, o motor do avião não sabe distinguir o querosene fóssil do bioquerosene”, declarou Paulo Kakinoff, presidente da companhia aérea, ao dizer que o 1° voo comercial do Brasil com biocombustível foi alcançado com um trabalho, em suas palavras, “incansável”, das empresas e entidades que estavam ali presentes.

“Por mais que nós olhemos pro todos os ângulos o projeto, temos muita dificuldade de encontrar um antagonista a esta proposta. Isso já representa a probabilidade de êxito”, explicou Kakinoff. Ele afirma que o trabalho que tem sido realizado pelas companhias de aviação na busca de solução, pode colocar o Brasil mais uma vez na liderança de um dos principais temas da agenda global: meio ambiente. “Fizemos isso com o Proálcool, com o biodiesel, e agora temos uma possibilidade concreta de fazer isso com o bioquerosene”, destacou o presidente da GOL.

“Hoje se escreve um capítulo importante da aviação brasileira e da perspectiva de construção do chamado desenvolvimento sustentável. Essa história está sendo construída a várias mãos. É um momento que posiciona o Brasil de forma diferenciada no mercado internacional de biocombustíveis. O bioquerosene é uma mudança de paradigma. Um combustível que não polui, é biodegradável e não é tóxico. Estou aqui representando o parlamento brasileiro, com muita alegria em testemunhar este novo momento. A partir de hoje, cumprir a missão de voar, respeitando a salubridade do ambiente, a saúde coletiva e preservar os recursos naturais do planeta”, deputado Márcio Macêdo.

O governador em exercício do Distrito Federal, Tadeu Filippelli, afirmou: “É uma alegria e honra em participar de um momento como esse. Nosso papel aqui é colocar Brasília à disposição para que seja um pólo desse sistema de bioquerosene no Brasil. Estamos de portas abertas para que Brasília possa fazer parte desse conjunto”, Filippelli dirigiu-se ao ministro Moreira Franco para colocar a candidatura do Distrito Federal como parceiro fundamental nesse projeto.

Moreira Franco, ministro da Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República disse: “Não tenho dúvida de que temos aqui uma oportunidade de conversar, sobretudo, a respeito de como este evento vai chegar ao consumidor. Esta iniciativa não é mera especulação acadêmica. Se busca encontrar uma alternativa que melhore a vida do cidadão. A aviação quer mitigar os danos que o combustível fóssil causa, mas também fazer com que os custos diminuam. É indispensável que nós tenhamos um preço de passagem adequado, que permita que tenhamos na aviação um transporte coletivo e não um transporte de elite. A história escrita nos livros não adianta. A história tem que ser escrita no bolso do cidadão. Precisamos agora juntar todo este esforço e transformá-lo em política pública e aí, eu creio que a SAC poderá dar a sua contribuição”.

Na oportunidade, Amyris e GOL assinaram um termo de cooperação para firmar a parceira na produção do bioquerosene, por parte da Amyris, e no uso, por parte da GOL. O biocombustível deve ser utilizado nos 200 voos que a companhia aérea afirmou que pretende realizar durante a Copa do Mundo 2014.

Veja também “A experiência de voar com sustentabilidade pelo céu do Brasil“.


print