Médico e professor na USP, Paulo Saldiva, diz que emissão desse combustível causa câncer

Em meio a polêmica sobre a Inspeção Veicular Ambiental, estabelecida pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), em Campo Grande, por decisão do prefeito Alcides Bernal (PP), o contrato de concessão com a Inspecionar acaba de ser suspenso e vai passar por uma avaliação da nova administração. Por conta disso, o Correio do Estado foi ouvir a maior autoridade brasileira no assunto: o médico e professor da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva. Segundo ele, não há outro caminho para minimizar o impacto e salvar vidas, que não seja a adoção de políticas públicas efetivas que encarem o problema de frente e transformem essa difícil realidade em ações concretas. Reforça estatística de que é cada vez maior o número de mortos ao ano por doenças causadas pela poluição do ar. O problema, porém, passa desapercebido pela população, mas assusta e chama a atenção para um perigo cada vez maior: o alto nível de emissões de gases poluentes. Em Campo Grande, a situação, na avaliação do professor, é igualmente preocupante por deter a maior frota de carros a diesel em circulação em comparativo percentual (16,31%). Quando se trata de diesel, Saldiva reforça que a inspeção é necessária na Capital sul-mato-grossense.

CORREIO PERGUNTA – É permitido a municípios com frota inferior a 3 milhões de veículos implantar seus programas de inspeção?

PAULO SALDIVA – Até onde conheço, somente as cidades com mais de 3 milhões de veículos podem implantar os seus próprios programas de inspeção. No caso de São Paulo, o ideal seria que a iniciativa fosse aplicada a toda a região metropolitana e não somente ao município, dado que muitos veículos das cidades vizinhas trafegam em São Paulo.

Campo Grande tem a 16ª maior frota do País. A frota da cidade é de aproximadamente 445.724 carros sendo que, destes, existem 72.705 veículos a diesel, ou seja 16,31% da frota total. A frota a diesel é a maior frota, em percentual, de todas as cidades do país. O senhor acredita que a inspeção se aplica numa cidade deste porte?

Sim, notadamente para a frota diesel. No ano de 2012, a Organização Mundial da Saúde classificou as emissões dos motores diesel como reconhecidamente causadoras de câncer. Os motores diesel são fontes importantes do material particulado fino, o poluente mais consistentemente associado com danos à saúde humana. Finalmente, devido à sua alta durabilidade, muitos veículos diesel com muitos anos de vida ainda estão circulando, merecendo portanto uma atenção maior.

Há grupos sociais mais suscetíveis aos impactos desta poluição causada pelos veículos como, por exemplo, taxistas, agentes de trânsito, crianças e idosos?

Não há dúvida disso. Em geral, a mortalidade aumenta em 6% para cada 10 microgramas/m3 de partículas finas e a expectativa de vida cai cerca de 7 a 8 meses para o mesmo incremento de poluição.

Qual o custo estimado, conforme a USP, com saúde que poderia ser economizado com a implantação de um programa de inspeção por habitante?

No caso de São Paulo, a economia chegou à casa de mais de uma dezena de milhões de dólares.

O senhor acredita que a inspeção veicular salva vidas? Poderíamos compará-la à obrigatoriedade do uso do cinto de segurança?

Sim. Um programa de inspeção veicular não representa a única e mais importante alternativa para o controle da poluição urbana. A melhoria do transporte coletivo, renovação da frota, melhoria da qualidade dos combustíveis e o incentivo ao transporte não motorizado (caminhada e bicicleta) são os “remédios” mais importantes mas, em geral, são amargos. Quando se prioriza o viário para os ônibus geralmente se reduz o espaço para os carros. Isso é impopular e geralmente não é adotado. Da mesma forma, a restrição ao transporte por carros (como feito em Londres), também não é das medidas que geram apoio da parte dos proprietários dos carros. Neste cenário, enquanto os remédios amargos não são administrados, é importante manter a frota emitindo a menor quantidade de poluentes possível.

O senhor acredita que existe justiça social em o município arcar com o custo da inspeção ao invés de o proprietário do carro? A relação poluidor pagador deveria existir neste tema?

Apoio que o poluidor tem de ser o pagador

É verdade que a poluição veicular causa danos à saúde não apenas naqueles cidadãos proprietários de veículos mas também naqueles que não são possuidores de automóveis, os de baixa renda?

Sim. Os segmentos menos favorecidos da sociedade são os mais afetados pela poluição. Estudos realizados em São Paulo comprovam que os mais pobres pagam uma conta maior em termos de saúde.

O senhor é favorável à ideia de que os gestores públicos, prefeitos e governadores, devem ser responsabilizados pela implantação dos programas de inspeção, mesmo sendo uma medida impopular?

Eu defendo que a inspeção veicular é um dos instrumentos de controle da poluição, mas não o único e mais eficiente. Acho que o tema da mobilidade e poluição são importantes como forma de melhorar a saúde pública, aliás como reconhecido pela própria organização mundial da saúde. A inspeção veicular deve ser entendida dentro de um contexto mais amplo, onde as medidas de apoio ao transporte coletivo e melhoria da tecnologia veicular têm papel preponderante.

Que riscos a poluição traz para a saúde?

A poluição do ar e dos grandes corredores de tráfego representa uma mistura de alteração de clima, tanto de calor, como de baixa umidade do ar, e formação de poluentes. Da mesma forma, outros fatores nos fazem sentir piores, tais como a sensação de imobilidade, de insegurança e de perda de tempo. O primeiro sintoma e o mais frequente é irritabilidade, aumento da pressão arterial, irritação ocular (que faz com que a nossa lágrima fique mais instável), além do estímulo no sistema de coagulação que funciona mais depressa. Em um indivíduo que seja hipertenso, este aumento de pressão arterial pode fazer a diferença. Em uma pessoa que tenha a tendência a ter trombose, isso pode ser a diferença para um trombo em uma coronária ou em um vaso cerebral, assim como um indivíduo asmático terá uma piora da asma. Para se ter uma ideia, o tempo que um paulistano gasta no tráfego leva em torno de duas horas e meia a três horas, e equivale, em termos de dose, a fumar dois cigarros por dia.

Se o senhor pudesse escolher um lugar para viver, qual seria: numa cidade aonde há um programa de inspeção veicular?

Eu escolheria a cidade onde há melhor estrutura cicloviária e de transporte coletivo.

Como avalia a inspeção de São Paulo?

É um programa que, no caso dos motores diesel, levou a uma redução de cerca de 5% dos níveis potenciais de material particulado fino. Acho que o saldo do programa foi positivo.


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