A diplomacia brasileira está estudando propor uma convenção internacional – ou uma declaração – sobre a transparência de informações ambientais, a ser apresentada na Rio+20, a conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável que será realizada no Rio de Janeiro, em junho.
A informação foi dada ontem por Gilberto Câmara, diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), durante a Fapesp Week, em Washington. A proposta de um acordo internacional sobre a disponibilidade ambiental de dados seria uma forma de tornar transparente os esforços de todos os países. “Com transparência se cria governança”, disse Câmara, explicando à plateia como os dados do Inpe sobre o desmatamento da Amazônia estão, há anos, disponíveis na web para quem quiser acessar. Esse tipo de atitude é indispensável para o desenvolvimento sustentável global, reforçou. “Será interessante saber de qual lado estarão os Estados Unidos”, provocou. “Nós (o Brasil) queremos disponibilizar informações sobre ambiente.”
A falta de consenso na transparência dos esforços ambientais dos países foi uma das travas da conferência do clima de Copenhague, em 2009. Na ocasião, os Estados Unidos pressionaram a China para que aceitassem uma espécie de auditoria internacional (conhecida pela sigla MRV) sobre os resultados de seus esforços em reduzir emissões de gases-estufa. A China entendia que aceitar a cláusula significava permitir uma ingerência em sua soberania. Os EUA pressionaram, mas nunca deixaram claro se o país também se submeteria ao mesmo princípio.
A Fapesp Week é um congresso científico que começou ontem, no Wilson Woodrow International Center for Scholars, em Washington, e que reunirá, até amanhã, 53 palestrantes brasileiros e americanos. São especialistas em temas como mudança climática e biodiversidade, biocombustíveis, pesquisas genéticas ou vacinas e doenças tropicais. O encontro, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), tem mais de cem pesquisadores, professores universitários e funcionários de empresas, de ambos países, na plateia.
Em sua apresentação, Câmara lançou outra provocação. “É um equívoco sem precedentes dos ambientalistas serem contra Belo Monte”, disse. Trata-se, segundo ele, de um engano político. “Está claro que a presidente Dilma considera que a segurança energética brasileira passa por Belo Monte”, continuou. “A oposição a enfraquece politicamente”, analisou.
Durante o evento, pesquisadores da Fapesp apresentaram seus projetos de pesquisa. O programa de mudança climática, por exemplo, foi iniciado em 2008, significa um investimento de US$ 30 milhões e durará dez anos, mapeando diversos aspectos do fenômeno – mudança do uso da terra, impacto da pecuária, adaptação e mitigação na emissão de gases-estufa, por exemplo. Há 21 projetos em andamento, informou Reynaldo Victoria, da USP e coordenador do programa da Fapesp. “A extensão da internacionalização da Fapesp tem sido uma das minhas preocupações fundamentais”, disse Celso Lafer, presidente da fundação.
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