Para encerrar as atividades da Conferência BiodieselBR 2011, o economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socieconômicos (Dieese), Sandro Silva, falou ao presentes sobre “Os impactos do biodiesel na inflação”. O economista pôde elucidar o público quanto às complexidades de elaborar um índice de inflação e as dificuldades de enxergar nos dados o peso que o preço do biodiesel efetivamente possui no resultado final.

De acordo com o economista, a inflação é um processo de aumento generalizado e contínuo dos preços e medi-la ajuda a saber a quantas anda o poder de compra de parcelas da população. Mas, conforme ele explica, para medir com precisão o efeito da inflação exige o cumprimento de três etapas preliminares:

1 – É preciso fazer uma Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) para acompanhar o consumo diário de um grande número de famílias que tenham um perfil bem definido. Esse é um trabalho demorado, caro e difícil que serve basicamente para determinar quais são os produtos e serviços que devem ser acompanhados e qual será o peso relativo de cada um deles. Isso é necessário porque o consumo muda notavelmente ao longo do tempo, há alguns anos os preços dos serviços de telefonia celular e de conexão à internet tinham uma importância bem inferior ao que teriam agora.

2 – É preciso determinar onde pesquisar os preços e quais os pesos dos diferentes estabelecimentos. O tipo de estabelecimento onde se consomem determinados produtos também é importante, por exemplo, embora supermercados e padarias vendam pão francês, o mais comum é que o consumidor recorra à padaria com mais frequência, logo o preço cobrado nesses estabelecimentos terá mais peso.

3 – A pesquisa mensal de acompanhamento dos preços. Com base nas informações produzidas pelos dois passos preliminares, os pesquisadores passam a acompanhar a variação dos preços durante determinado período de tempo (o mais comum é um mês, mas outras periodicidades são possíveis) e, com base na variação registrada, calculam o índice de inflação.

Silva explica que variações em cada um desses passos – por exemplo, a renda e a idade das famílias incluídas na POF, a abrangência geográfica dos levantamentos e a periodicidade – e na metodologia usada para calcular as médias dos valores obtidos levam aos diferentes resultados dos diversos índices de inflação disponíveis no Brasil.

Segundo ele, o mais importante é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) produzido mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para apurar a inflação para famílias com renda entre um e 40 salários mínimos. “Esse é o índice que o governo adota como valor oficial para as metas de inflação”, explica.

Segundo ele, o peso relativo do óleo diesel apurado pelo IPCA é muito pequeno. Em setembro passado foi de 0,0745, bem inferior à variação do etanol que foi de 0,4064. O problema é que esse é apenas o impacto direto do diesel sobre a renda familiar. Segundo o economista o impacto indireto nesse caso será bem maior. “Esse é um item que não tem impacto direto, mas que, indiretamente, entra na formação dos preços de praticamente todos os outros produtos e serviços. Só que isso é muito difícil de calcular porque o peso relativo do diesel varia demais em função do segmento observado”, explica. Ele acrescenta que setores que agreguem muito valor a variação do preço do diesel terão pouco impacto, mas em setores com margens mais apertadas esse é um fator importante.

Ele também alerta que existe no biodiesel e nos óleos vegetais um equilíbrio dinâmico de preços, parecido ao que acontece entre o etanol e o açúcar. Sempre que o preço do açúcar sobe muito o custo do etanol tende a acompanhar a alta. “Algo que era para ser uma alternativa à variação de preços dos combustíveis fósseis também acaba gerando um problema”, pontua.

Ele também ressalta que a economia brasileira tem estado aquecida desde 2004 e que o crescimento deverá prosseguir pelos próximos anos. Isso levará a uma ampliação dos preços dos combustíveis, especialmente se for levado em conta o crescimento do mercado automobilístico que puxará para cima a demanda por combustíveis líquidos. “Em 2010, o Brasil foi o 7º maior produtor de veículos e o 4º maior mercado interno de automóveis do mundo”, finaliza.

print