imprimir

Começou nesta quinta-feira, 15, o Seminário Nacional sobre o Complexo Agroindustrial do Biodiesel no Brasil, na sede da Embrapa, em Brasília. O evento marcou o lançamento do livro, “Complexo Agroindustrial do Biodiesel: Competitividade das cadeias produtivas de matérias-primas”, no qual reuniu entrevistas realizadas com produtores, técnicos, pesquisadores e empresários, de todas as regiões do país, ao longo dos últimos quatro anos.

O chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Manoel Teixeira Souza Jr, abriu o Seminário e ressaltou a importância do tema para o país e para os negócios da agroenergia e apontou as perspectivas futuras para o biodiesel.

Um dos editores técnicos da obra, o ex-pesquisador da Embrapa, Antônio Maria Gomes de Castro, abriu a discussão técnica sobre o conteúdo do livro. A primeira grande discussão foi a definição das alternativas disponíveis no Brasil para o biodiesel. Nesse sentido, foram selecionadas cinco oleaginosas – soja, dendê, girassol, mamona e canola – a serem abordadas no estudo. Em cada uma delas foi analisado o sistema agroindustrial, ressaltando as respectivas características de produção, de produtividade e as limitações e oportunidades.

Na ocasião, Antônio Maria disse ainda que o projeto do livro teve como foco a identificação de estratégias que podem ser propostas para a evolução do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). “A resposta está no setor primário com ofertas de matéria-prima domesticada com escabilidade e produtividades comerciais e crescentes, visando o fornecimento contínuo, no entanto, faz-se necessária políticas públicas bem alinhavadas e claras”, completa o ex-pesquisador da Embrapa.

Suzana Maria Valle Lima, também ex-pesquisadora da Embrapa e editora técnica, apresentou o segundo capítulo do livro, que traça um panorama da produção de biodiesel no Brasil e do mundo. Iniciando as apresentações sobre os sistemas produtivos, João Flávio Veloso Silva, terceiro editor técnico do livro e Chefe-Geral da Embrapa Agrossilvipastoril, falou sobre a soja, que responde por cerca de 80% da produção nacional de biodiesel. Silva apontou que, ao contrário do que muitos pensam, há uma forte participação de empresas familiares na produção de soja, principalmente na região Sul do país.

O sistema produtivo do dendê foi abordado por Jeferson Luís Vasconcelos Macêdo, da Embrapa Amazônia Ocidental. Entre as oleaginosas é a que produz a maior quantidade de óleo vegetal por hectare. Além disso, entre os fatores favoráveis, Macêdo destacou a elevada produção ao longo do período de exploração econômica da palmeira, que pode ser de até 25 anos. Sobre as limitações desse sistema, um dos pontos que mais preocupa é o fornecimento de sementes, que hoje está muito aquém da demanda, gerando uma produção descontínua, que aumenta ou diminui dependendo da oferta do insumo.

A apresentação do pesquisador Cesar de Castro, da Embrapa Soja, sobre o sistema produtivo do girassol mostrou como essa oleaginosa ainda tem muito espaço para crescer na produção nacional. Com condições favoráveis, o girassol pode ser plantado de norte a sul do país. Além disso, Castro destacou a grande capacidade que o Brasil tem para expandir sua produção de oleaginosas.

O sistema de cultivo da mamona foi abordado pelo pesquisador Joffre Kouri, da Embrapa Amapá, que apresentou dados mostrando que essa planta se consolidou na região Nordeste, onde estão cerca de 80% da produção nacional, sendo que a Bahia concentra mais de 90% da produção dessa região.  Com relação ao processo produtivo, Kouri explicou que, de modo geral no cultivo da mamona, são registrados problemas com arranjos populacionais, época de semeadura, assistência técnica e planejamento e gestão das atividades na propriedade. “Entre as oportunidades para reverter esse quadro, cito o aumento da disponibilidade de crédito para as culturas de oleaginosas na agricultura familiar, das opções tecnológicas e da organização do segmento. Entre as limitações estão a dificuldade de acesso ao crédito por inadimplência, baixo grau de adoção de tecnologias e assistência técnica, alto custo de matéria, vulnerabilidade do sistema produtivo em decorrência da prática de plantios sucessivos, entre outros”, finalizou.

O pesquisador Gilberto Tomm, da Embrapa Trigo, explanou sobre a canola, cuja produção nacional chegou a 40 mil toneladas em 2009. Segundo Tomm, as pesquisas de seleção e melhoramento genético para essa cultura têm como objetivo a produção de óleo de excelente qualidade, tanto para consumo alimentício como para a produção de biodiesel. Iniciadas em 1974, as pesquisas têm garantido a posição mundial da cultura em terceiro lugar entre as oleaginosas, atrás do dendê e da soja. “Cresce a cada ano a produção de canola no Brasil, fruto também de estratégias bem-sucedidas de transferência de tecnologia, do bom aproveitamento de tecnologias e maquinários já utilizados na cultura da soja e ainda graças às parcerias e envolvimento do setor produtivo”.

Outro aspecto abordado pelo pesquisador foi a excepcional adaptação da cultura aos diversos climas e solos do país, o que tornou a canola uma opção em potencial de produção de alimentos e biodiesel. “Esse fenômeno está sendo chamado de tropicalização da canola, que tem ganhado espaço não só em regiões tradicionais de cultivo, mas também em regiões mais quentes do Brasil, como o Nordeste e o Cerrado. A lógica é a mesma da soja. Observa-se já uma expansão fantástica que mostra sua capacidade de flexibilização. Mas essa realidade é pouco conhecida, o que é uma limitante para o crescimento da cultura”. Entre as conclusões citadas pelo pesquisador da Embrapa Trigo, destacam-se a percepção de que a demanda pelo óleo de canola é superior à oferta, de que há tecnologia disponível para a cultura, o que propicia otimização dos investimentos e redução da capacidade ociosa. “A comercialização é fácil, seguindo o exemplo da soja. A expectativa é de que o Brasil seja um grande produtor e exportador de canola em um futuro próximo, o que permitirá aumento da produção de biodiesel e de alimentos e geração de emprego e renda a um baixo custo ambiental”.

Finalizando o Seminário, Antônio Maria de Castro afirmou que “sem barreiras técnicas ou tarifárias, o biodiesel brasileiro conquistará o mundo”. Mas, para isso, há que trabalhar a questão política e estratégica para se conseguir vantagens competitivas. “Deve-se dar atenção especial às normas de qualidade nacionais e internacionais e para garantir a crescente eficiência produtiva no complexo agroindustrial do biodiesel deve-se investir continuamente em pesquisa e inovação”, concluiu Castro.