Safra recorde no Brasil, estoques elevados nos Estados Unidos e dinâmica do complexo soja mantêm equilíbrio de mercado, com suporte vindo do cenário global e da demanda por derivados.

O mercado global de soja apresenta viés altista no curto prazo, apesar de um cenário ainda pressionado pelo excesso de oferta. A avaliação consta no Relatório de Inteligência de Mercado da Soja divulgado pela MerX, que aponta tendência neutra no médio prazo, em meio a fatores macroeconômicos e geopolíticos que vêm sustentando os preços internacionais.

Entre os principais vetores de suporte está a valorização do óleo de soja, impulsionada pelo avanço do petróleo e pelas expectativas de maior demanda por biodiesel. Segundo o relatório, o óleo subiu cerca de 30% desde o início do ano, movimento diretamente relacionado ao cenário geopolítico envolvendo o conflito entre EUA/Israel e Irã, que elevou os preços do petróleo e, consequentemente, fortaleceu as margens do esmagamento global.

No campo dos fundamentos, no entanto, o mercado segue pressionado pela ampla disponibilidade de soja. Nos Estados Unidos, os estoques “on farm” atingiram 136,2 milhões de toneladas, mais que dobrando em relação ao ano anterior, reflexo da menor participação da China nas compras, mesmo diante de um ritmo recorde de esmagamento.

No Brasil, a safra recorde está confirmada, apesar de perdas localizadas no Rio Grande do Sul. O principal ponto de atenção permanece sendo a qualidade dos grãos, impactada pelas chuvas persistentes durante a colheita. Estima-se que cerca de 8,8% a 9% da produção nacional, equivalente a aproximadamente 16 milhões de toneladas, apresente algum nível de deterioração. As chuvas também têm desacelerado o ritmo da colheita em diversas regiões, especialmente no Centro-Oeste e no MATOPIBA, onde há áreas prontas, mas sem condições operacionais para avanço dos trabalhos.

Na Argentina, o cenário produtivo apresentou melhora recente após a ocorrência de chuvas mais abrangentes. As condições das lavouras evoluíram, com aumento das áreas classificadas como normais a excelentes, e a projeção de produção foi mantida em 48,5 milhões de toneladas, com grande parte das áreas ainda em fase crítica de desenvolvimento.

No mercado internacional, fatores comerciais também influenciam a formação de preços. Relatos de suspensão de embarques de soja brasileira para a China, em função de maior rigor sanitário, aumentaram a possibilidade de redirecionamento de cargas para os Estados Unidos, alterando fluxos de curto prazo e trazendo volatilidade ao mercado.

Em Chicago, os contratos futuros seguem sustentados principalmente pelo desempenho do óleo de soja e pelo mercado de biodiesel, mesmo diante de fundamentos ainda pressionados pelo lado da oferta. No Brasil, a entrada da supersafra tem resultado em queda do basis e manutenção de preços internos relativamente estáveis, com o ritmo de comercialização ainda lento por parte dos produtores.

De forma geral, o relatório indica que o mercado de soja permanece em um equilíbrio delicado: enquanto a ampla oferta global exerce pressão estrutural, fatores externos — especialmente ligados à energia e ao biodiesel — seguem dando suporte aos preços no curto prazo.